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"Não vamos desistir": rádio dá voz às mulheres afegãs

"Não vamos desistir": rádio dá voz às mulheres afegãs

A partir de Cabul, a capital controlada pelos Talibãs, a Rádio Begum transmite as vozes das mulheres que têm sido silenciadas no Afeganistão.

A estação preenche as ondas de rádio com programação para mulheres e feita por mulheres: programas educativos, leituras de livros e aconselhamento de ouvintes que telefonam a pedir ajuda. Por enquanto, operam com a permissão dos islamistas de linha dura que recuperaram o poder em agosto e limitaram a capacidade das mulheres para trabalhar e das raparigas para frequentar a escola.

"Não vamos desistir", prometeu Hamida Aman, de 48 anos, fundadora da estação de rádio, que cresceu na Suíça depois de a sua família ter fugido do Afeganistão, alguns anos após a invasão da União Soviética."Temos de mostrar que não precisamos de ter medo", sublinha Aman, que regressou após a destituição do primeiro regime dos talibãs em 2001 pelas forças estrangeiras lideradas pelos EUA. "Temos de ocupar a esfera pública".

Veículo para as vozes

A rádio foi fundada a 8 de março, Dia Internacional da Mulher, deste ano, cinco meses antes de os Talibãs marcharem até Cabul e finalizarem a vitória sobre o Governo apoiado pelos EUA. A partir de um bairro da classe trabalhadora, a Begum continua a transmitir para Cabul e áreas circundantes - e ao vivo no Facebook.

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"Begum" era um título nobre utilizado na Ásia do Sul e agora refere-se geralmente a uma mulher muçulmana casada.

"Esta estação é um ponto de acolhimento para as vozes das mulheres, a sua dor, as suas frustrações", afirma Aman. Os Talibãs autorizaram a emissora a permanecer ativa em setembro, embora com novas limitações. As cerca de dez funcionárias da Rádio Begum costumavam partilhar um escritório com colegas homens que trabalhavam numa estação de rádio juvenil, mas agora estão separados. Cada sexo tem o seu próprio piso e foi instalada uma grande cortina opaca em frente à zona das mulheres. A música pop que se ouvia foi agora substituída por canções tradicionais e "música mais calma"

Ainda assim, para estas mulheres, trabalhar na estação é um "privilégio", já que muitas funcionárias do governo foram impedidas de regressar aos locais de trabalho. Até ao momento, os Talibãs ainda não formalizaram muitas das suas políticas, deixando lacunas na forma como estas são implementadas em todo o país.

A maioria das escolas secundárias públicas para raparigas tem estado fechada desde a tomada de posse, mas duas vezes por dia, o estúdio de rádio assemelha-se a uma sala de aula. Quando a Agência France Presse os visitou, seis raparigas e três rapazes - todos com 13 ou 14 anos de idade - estavam debruçados sobre os seus livros, enquanto o apresentador dava uma lição de justiça social no ar.

"A justiça social opõe-se ao extremismo", disse a professora de 19 anos, estudante de jornalismo até há poucos meses. "O que é a justiça no Islão?" questionou ela.

"Oportunidade de ouro"

Mursal, uma menina de 13 anos, tem ido ao estúdio para estudar desde que os Talibãs bloquearam a reabertura de algumas escolas secundárias e deixa um recado a outras meninas como ela: "A minha mensagem às raparigas que não podem ir à escola é ouvir atentamente o nosso programa, para usar esta oportunidade e oportunidade de ouro, por que podem não a ter novamente", explicou a jovem.

Mas nesta rádio também há programação e aulas para adultos. Numa dessas lições, a diretora da estação, Saba Chaman, 24 anos, leu a autobiografia de Michelle Obama em Dari. Chaman está também particularmente orgulhosa de um programa em que as ouvintes pedem aconselhamento psicológico.

Em 2016, apenas 18% das mulheres no Afeganistão eram alfabetizadas em comparação com 62% dos homens, de acordo com o antigo Ministério da Educação. "As mulheres analfabetas são como os cegos", disse uma mulher que não sabe ler na antena da Rádio Begum. "Quando vou à farmácia, dão-me medicamentos foram do prazo. Se conseguisse ler, elas não o fariam".

Alguns meses após a tomada do poder pelos Talibã, Aman encontrou-se com o porta-voz Zabihullah Mujahid e disse-lhe que a rádio estava "a trabalhar para dar voz às mulheres". Ele foi "muito encorajador", afirmou, mas pouco se sabe sobre o que vai acontecer.

Mas o futuro é incerto.

Em setembro, a principal estação de televisão independente do país, Tolo News, noticiou que mais de 150 empresas tinham fechado por causa de restrições e problemas financeiros e, desta forma, a Rádio Begum já não recebe receitas publicitárias. Se não forem recebidos fundos no prazo de três meses, as vozes destas mulheres desaparecerão das ondas de rádio do Afeganistão.

"A minha única causa de esperança neste momento é saber que estou a fazer algo importante na minha vida para ajudar as mulheres afegãs", concluiu Chaman.

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