Tensão

Navalny: "Não vou dar a Putin o presente de não regressar à Rússia"

Navalny: "Não vou dar a Putin o presente de não regressar à Rússia"

O dirigente da oposição russa Alexei Navalny acusa Vladimir Putin de estar por detrás do envenenamento de que foi vítima em agosto. Já o presidente da Duma, câmara baixa do Parlamento russo, acusa o oposicionista de trabalhar para os serviços secretos ocidentais.

É apenas um pormenor daqueles que dão imagens às entrevistas. Alexei Navalny decide clarear a garganta com água enquanto conversa com os jornalistas na redação do "Der Spiegel", em Berlim. Precisa de ambas as mãos para segurar o copo. Tremem-lhe. "Não é de medo - é desta coisa": do veneno, identificado por três laboratórios europeus (um alemão, um francês e um sueco) como o agente neurotóxico de produção militar russa Novichok, que no dia 20 de agosto o atirou para o coma quando voava da siberiana Tomsk para Moscovo. O ataque, afirma entre golos de água, só pode ter por detrás o presidente russo, Vladimir Putin. "Não vejo outras explicações". Porque "a ordem para usar" Novichok "só pode vir" dos líderes dos três serviços de informação, com instrução superior.

O mais famoso opositor do presidente russo foi hospitalizado em Omsk, na Sibéria, e transferido para a Alemanha depois das pressões da chanceler alemã e dos pedidos da família. Saiu do hospital ao cabo de 32 dias. Recupera devagar e conta pela primeira vez o que passou. Com promessas: vai regressar a casa porque não tem medo. "Não vou dar a Putin o presente de não regressar à Rússia. Não regressar significaria que Putin atingiu o objetivo pretendido." E só saiu de lá porque se lá morresse depois de tanto alarido, seria um mártir.

Agente ocidental

Publicada esta quinta-feira de manhã online, a entrevista ao "Der Spiegel" gerou a imediata resposta moscovita. Com uma denúncia inédita. Navalny é, afinal, um espião a soldo do Ocidente. Primeiro, vinda do presidente da Duma, a câmara baixa do parlamento russo: "Navalny não tem vergonha e é um vilão. Putin salvou-lhe a vida. É evidente que Navalny trabalha com os serviços secretos especiais e para autoridades de países ocidentais". Viatcheslav Volodine não adiantou como é que Putin salvou a vida ao opositor de 44 anos, sendo certo que os médicos russos que o atenderam em Omsk rejeitaram qualquer sinal de envenenamento.

Depois, confirmada pelo porta-voz do Kremlin: "Os instrutores da CIA" (serviços de informações dos EUA) e outros trabalham com Navalny. Dmitri Peskov não elaborou, mas lamentou as acusações do opositor. "Não têm fundamento e são inaceitáveis".

Navalny regressava de ações de campanha para as autárquicas na região. Proibido de se candidatar e de ter partido - já foi preso dezenas de vezes por convocar protestos -, apelava ao voto útil no candidato com mais hipótese de derrotar o que se apresentasse pelo partido Rússia Unida, de Putin. Conhecido por denunciar corrupções no círculo próximo do presidente, garante que não quer "ser um líder opositor no exílio". "Tenho o dever de me manter como o tipo que não tem medo. E eu não tenho medo!"

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Pode regressar, "não importa", até porque "não fez nada de heróico", ironizou Peskov. E o facto de a justiça russa lhe ter bloqueado contas e bens enquanto estava em coma não é chamado para o caso.

Navalny insiste em despejar a garrafa de água sem ajuda. Tem cicatrizes no pescoço de todos os procedimentos invasivos a que foi sujeito, perdeu 12 quilos e a capacidade de dormir como deve ser. Ri-se quando diz que o seu próximo objetivo é segurar-se numa perna e esticar a outra para cima, como os velhos no parque e que passear no porque é, agora, o seu trabalho. Subiu cinco andares a pé para a entrevista. Diz-se "basicamente um porquinho da Índia", um animal de laboratório que sobreviveu ao veneno, como poucos conseguiram. O futuro é o da recuperação a 90%, o sonho ´fixa-se nos 100.

O pesadelo é o que fica para trás: "Não sentes dor, mas sabes que estás a morrer. Agora." Em suor, ainda avisou a tripulação do voo que fora envenenado e estava a morrer e foi deixando de ouvir até apagar, até saber que morrera. "Os compostos organofosforados atacam o teu sistema nervoso como um ataque a um sistema DDos ataca um computador - é uma sobrecarga que te rebenta". Foi aí que terá gritado, como se viu num vídeo amador. Sentiu: "É o fim". "Só mais tarde dei conta de que estava errado".

Provocação na ONU

Moscovo acusou a Alemanha de "provocação" depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão ter denunciado, na Assembleia Geral da ONU, a violação pela Rússia da proibição de armas químicas no caso Navalny. Heiko Maas pediu a Moscovo para clarificar o caso. Encaixa na "linha abertamente hostil antirrussa de Berlim", diz Moscovo.

O Nord Stream 2

O caso Navalny levou Berlim a ponderar suspender o projeto russo de pipeline de gás Nord Stream 2, com passagem pela Alemanha. Questionado sobre o assunto, Navalny respondeu ser um problema alemão que competiu a Berlim avaliar. Mas foi avisando que qualquer estratégia em relação à Rússia tem que "levar em conta o nível de insanidade a que Putin chegou".

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