Venezuela

Nem os mortos estão a salvo no maior cemitério de Caracas

Nem os mortos estão a salvo no maior cemitério de Caracas

No maior cemitério de Caracas, o Cementerio del Sur, a maioria dos túmulos foi saqueada por grupos de assaltantes em busca de joias, dentes de ouro e até ossos.

No Cementerio del Sur, o cenário entristece os familiares de quem lá jaz. As sepulturas vandalizadas, as ossadas à vista. Há quem procure entre os mortos bens com valor, como joias e dentes de ouro. Os ossos são roubados para serem vendidos e utilizados em rituais religiosos. A descrição é da BBC, que captou imagens do local e ouviu as queixas de quem lá vai porque tem de ir, validando as fotografias que vão circulando no Twitter.

Eladio Bastida verifica regularmente o túmulo da mulher, onde está enterrada há um ano e meio, para ter a certeza de que não foi saqueado. "Venho aqui todas as semanas ou de duas em duas semanas. Mantenho-me atento, tenho medo de um dia chegar cá e ela já não estar", desabafou, explicando que o cemitério nem sempre foi como é.

"Quando a enterrei, podia andar-se aqui. Mas agora quase não se consegue chegar à sepultura dela porque todos os túmulos foram abertos e os restos mortais retirados", lamentou.

Os furtos são tão recorrentes que algumas famílias escrevem as palavras "isto foi roubado" para evitar novos ataques. Os funcionários responsáveis pela manutenção do cemitério dizem não conseguir parar a problemática, que afeta também os túmulos das grandes figuras históricas da Venezuela. "É uma terra sem lei, aqui não há respeito por nada. Deus vai castigar as pessoas que estão a fazer isto", disse Eladio.

Para Jorge Liscano, que quer exumar os restos mortais dos familiares de uma das únicas sepulturas ainda intactas, a situação é uma metáfora sobre a própria Venezuela: "Isto resulta do colapso social, da falta de educação, da perda de valores nas nossas casas e instituições. Nos últimos tempos, este país só se preocupou com política. Esquecemos as coisas que fazem de nós humanos."

Segundo a BBC, em 2016 o Governo admitiu haver uma falha de segurança, anunciando um reforço de policiamento, até agora aparentemente infrutífero.

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