Investigadora

"Neste momento ninguém consegue parar Putin na Ucrânia"

"Neste momento ninguém consegue parar Putin na Ucrânia"

Sandra Fernandes, investigadora especialista em Relações Internacionais da Universidade do Minho, falou ao "Jornal de Notícias" sobre os contornos da invasão russa na Ucrânia e falou ainda da capacidade dos russos para resistir às sanções do Ocidente.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, lamentou que a Ucrânia tenha sido deixada sozinha a combater os russos. Que podem fazer os países aliados face à invasão russa?
O presidente da Ucrânia encontra-se na pior das situações. Não sendo um estado da NATO, e tendo os EUA e a União Europeia dito, desde o início da crise, que não entrariam diretamente ao lado das forças ucranianas para defender o território da Ucrânia... O presidente Zelensky está efetivamente sozinho na linha da frente.

No terreno está sozinho, apesar do apoio dos EUA e da UE...
Claro que não está completamente sozinho, porque há muito apoio financeiro, já houve entrega de equipamentos defensivos. Mas de facto há aqui um "trade-off" que o presidente Putin percebeu muito bem - e faz parte do que podemos perceber por que é que acabou por atacar, apesar de ser uma grande surpresa - ficou claro que não haveria intervenção armada das entidades aliadas.
Do ponto de vista da Ucrânia é uma grande desilusão, mas, ao mesmo tempo, é uma necessidade porque a alternativa é uma guerra mundial. Se houvesse um apoio direto estaríamos perante uma guerra mundial.

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Como é que se pode então travar Putin?
É a grande questão, sendo que os ocidentais descartaram a possibilidade de se envolverem militarmente num conflito como a guerra. Julgo que neste momento ninguém consegue parar Putin na Ucrânia. É preciso ver o dia de amanhã, tem de se ver mais longe e perceber como parar Putin para além da Ucrânia.

A tomada de Kiev o que pode significar: forçar a queda do atual Governo ou é uma tentativa para forçar a abertura aos interesses russos?
O objetivo é muito claro, uma mudança de regime na Ucrânia. Um regime que não seja pro-ocidental e que não seja anti-Putin. Uma guerra não é propriamente um fator de atração, sendo que a atratividade da Rússia é cada vez menor e é, aliás, um dos efeitos contraproducentes que se espera para Putin.

O que é que Putin pode estar a pensar para invadir Kiev?
Numa Ucrânia totalmente tomada e num cenário de guerrilha urbana, que é o que se espera venha a acontecer, a maior parte dos ucranianos não vão ser favoráveis à presença russa. A alteração de poder é o primeiro passo e é fundamental para controlar todas as instituições de poder, instituições executivas, legislativas e judiciais. É o primeiro passo para dar dividendos a médio prazo à Rússia mas não será fácil controlar o país.

E o que é que se pode seguir à queda da capital ucraniana?
Neste momento estamos em suspenso à espera de uma ação coesa e forte que force Putin a parar. Porque se fez isto na Ucrânia, podemos vislumbrar outro tipo de ações de desestabilização na própria Bielorrússia, que já é um país muito alinhado com Putin, mas pode ainda sofrer alterações que venham transformar aquele estado num estado ainda menos soberano do que já é. E olhamos para a Moldávia, para o Cáucaso do Sul, para a Ossétia do sul e a Abecásia, e percebemos que nos encontramos numa situação de altíssimo risco, sem dúvida. A Ucrânia tinha perdido a Crimeia, tinha perdido factualmente Donetsk e Lugansk, a Ucrânia vai agora ficar sem grande parte do território, se não todo. A situação é muito grave.

As sanções ocidentais serão suficientes para reverter a atual situação de guerra?
As sanções da UE têm mesmo de ser muito fortes. Têm de ser mais do que um sinal, tem de haver consequências. Por muito difícil que seja que produzam um efeito imediato, têm de surtir algum tipo de efeito.

Que tipo de efeitos são esperados?
O efeito tem de ser na Economia. Há dois níveis de efeitos: o simbólico, que já sabemos que não tem qualquer tipo de impacto junto de Putin, que é condenar uma ação. Um Estado condenado é considerado um pária. Esse efeito já está em prática desde 2014 e não resultou. O segundo tipo inclui a dimensão material, económica e financeira, dos efeitos das sanções e opera em duas dimensões. Estamos a falar de um país autocrático e corrupto. Há um entendimento entre quem está no poder e quem dirige as grandes empresas e os grandes consórcios russos, os oligarcas. As sanções podem de facto afetar as carteiras dessas pessoas e o volume de negócios dessas pessoas. Mas penso que, no imediato, essas elites estão dispostas a arcar com as consequências porque estão alinhadas com Putin. Por isso, apesar de ir às carteiras dessas pessoas as sanções poderão não surtir já impacto.

Qual a outra dimensão?
Outra dimensão é olhar para o povo. As sanções podem ter efeito no dia-a-dia dos russos e na capacidade de comprar bens de consumo, a carne, o pão, a manteiga... Não temos uma opinião pública generalizada na Rússia que apoie a opção militar na Ucrânia. Se as sanções afetarem o dia-a-dia dos russos, eventualmente o que se espera, e mais uma vez não é imediato, é que comece a haver na sociedade civil que pressione o Governo para mudanças. Mas isto não vai acontecer hoje, amanhã ou daqui a um mês. Enquanto a liderança de Putin e a sua sucessão não forem postas em causa, os efeitos das sanções só podem ser esperados a médio prazo.

No imediato as sanções não surtirão efeito...
A Rússia pode ainda adotar contra-sanções e, por exemplo, fechar a torneira do gás. E decidir que vai suportar as consequências durante determinado tempo. Sabe-se que há uma certa capacidade russa porque tem uma dívida externa baixa e tem grandes reservas de dinheiro. A Rússia tem capacidade para resistir largos meses a medidas de sanções.

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