História

Neto de sobreviventes do Holocausto: "O trauma persegue as famílias por várias gerações"

Neto de sobreviventes do Holocausto: "O trauma persegue as famílias por várias gerações"

As histórias de quem sobreviveu aos campos de concentração nazis ainda vivem nas memórias e palavras dos seus descendentes. Jonathan Lackman, escritor e jornalista a residir no Porto, conta ao JN como se certifica que a vida dos avós não é esquecida.

A 1 de setembro de 1939, o futuro de Lola e Sol Lackman mudou. A Alemanha nazi invadia a Polónia e iniciava uma série de detenções forçadas de milhares de judeus, que seriam reencaminhados para campos de concentração e sujeitos às mais miseráveis condições de vida. Alguns conseguiram escapar temporariamente, outros foram quase imediatamente apanhados na teia.

"Todos os familiares e amigos tinham sido mortos logo após a invasão da Alemanha, eles tiveram de se tornar adultos e sobreviver sozinhos", conta ao JN, Jonathan Lackman, neto de Lola e Sol Lackman, um casal polaco que sobreviveu às atrocidades e aos campos de concentração nazis. Aos 45 anos, o norte-americano a residir no Porto desde Julho de 2019, faz questão de não deixar morrer a memória dos avós paternos, sobreviventes do Holocausto.

Aos 14 anos, e debaixo do olhar das forças nazis, a jovem polaca Lola foi ajudada por um grupo de raparigas católicas, que se certificavam que tinha comida e um esconderijo seguro para escapar à ida para os campos de concentração. Mas não teve sorte. Lola, avó de Jonathan, foi descoberta e enviada para Bergen-Belsen, no norte da Alemanha. O mesmo campo de concentração onde viria a falecer Anne Frank, a adolescente judia conhecida pelo "Diário de Anne Frank", publicado após a sua morte pelo pai Otto Frank.

Sol Lackman não teve tempo de respirar, sequer. Aos 18 anos, a invasão alemã ditou a quase imediata detenção para Treblinka, um dos campos de concentração de Adolf Hitler na Polónia. O corpo robusto e forte terá sido, segundo o neto Jonathan, uma das razões para ter sobrevivido a anos de privação de comida e ao trabalho forçado. "Teve sorte suficiente para ser uma das únicas pessoas a escapar a Treblinka", acrescenta o jornalista de 45 anos.

Fora do campo de concentração, Sol conheceu a solidariedade anónima, que não tinha encontrado quando foi denunciado pelos amigos polacos, católicos, que ditaram a ida para Treblinka. "Quando falava com o meu avô, ele estava menos ressentido com os alemães do que com os vizinhos polacos que disseram às autoridades (sem serem questionados) onde podiam encontrá-lo. Conhecia estas pessoas, fazia negócios com elas, pensava que eram seus amigos, mas denunciaram-no imediatamente", recorda.

Escondidos num celeiro polaco

Ao contrário de Sol, Lola só saiu do campo de concentração de Bergen-Belsen quando este foi libertado, a 15 de abril de 1945. Nessa altura, os dois não se conheciam. Ou melhor, Lola sabia quem era Sol: viviam em cidades vizinhas na Polónia. O avô de Jonathan perdeu o pai e a namorada da altura em Treblinka e só viria a conhecer Lola depois de II Guerra Mundial terminar. Mas já lá vamos.

Encontraram-se na Bélgica, numa Europa que ainda tentava apanhar os cacos de uma guerra devastadora. Lola contraiu tifo em Bergen-Belsen e foi internada num hospital da Cruz Vermelha. Sol foi à procura de familiares e amigos naquela mesma unidade hospitalar. O neto Jonathan Lackman conta ao JN que a avó chamou pelo nome de "Sol". "Eu sei quem tu és, mas tu não sabes quem eu sou", disse Lola na cama do hospital. Anos mais tarde, em 1948, nascia o pai de Jonathan e começava a história desta família. Emigraram para os Estados Unidos e deixaram a Europa para trás das costas.

Ainda durante os anos de Lola no norte da Alemanha, Sol (já fora de Treblinka) contou com a ajuda de um casal católico de agricultores, que até a guerra terminar, escondeu cinco adolescentes judeus no celeiro de casa, "muito embora tivessem familiares profundamente antissemitas", conta o neto. Uma "dívida" que ficou até ao final da vida. Já como adultos e debaixo de uma aparente paz mundial, Sol e Lola Lackman enviavam dinheiro, cartas e fotografias todos os anos para o casal. "Eles receavam que o Holocausto regressasse".

O "fardo" de ser sobrevivente do Holocausto

Para trás das costas, não ficou porém a sua história, muito embora, Lola e Sol quisessem ocultar aos filhos a passagem pelos campos de concentração nazis. "Decidiram que não queriam contar quase nada sobre a sua experiência durante a guerra aos filhos", conta o neto Jonathan, que só tomou consciência da vida dos avós quando foi para a faculdade e depois de muita insistência junto deles. "Conseguia ver que aqueles anos ainda os torturavam. Eles tinham pesadelos recorrentes sobre aquele tempo, apesar de ter acontecido há décadas", diz ao JN.

Apesar da avó Lola ir recorrentemente dar palestras a escolas norte-americanas sobre a sua vida, a sobrevivência quase heroica do casal durante o Holocausto tem muito pouco de romântico. "Muitas vezes, o meu avô via sangue em vez de água no lavatório ou ligava a televisão e via sangue no ecrã", relembra Jonathan Lackman. "O trauma continua a perseguir muitas famílias de sobreviventes, por vezes, por várias gerações".

Lola e Sol já não estão cá para ver a sua história replicada em páginas de jornais ou reportagens de televisão, no entanto o neto faz questão de lembrar pelo que passaram durante a II Guerra Mundial, especialmente quando se assinalam 75 anos da libertação de Auschwitz, esta segunda-feira. "Eu não posso falar por todos os descendentes, mas é importante para mim recontar a história deles. Há muitas pessoas que negam que o Holocausto tenha acontecido", afirma.

Estima-se que mais de seis milhões de judeus tenham morrido durante o Holocausto. Jonathan Lackman vai contar a história dos avós, esta terça-feira, na Oporto British School. Para que a memória de Lola e Sol e de um dos períodos mais negros da História Mundial não caia em saco roto.