Ucrânia

Ninguém cantou vitória na praça da Independência

Ninguém cantou vitória na praça da Independência

O poder em Kiev chegou a acordo com a Oposição, mas na praça da Independência ninguém soltou gritos de vitória. As mortes dos últimos dias foram preço demasiado alto a pagar, dizem manifestantes.

Natalia Loochsheva passou a semana a trabalhar e só ontem conseguiu escapar dos subúrbios de Kiev para cumprir um desejo simples. Trazer até ao centro sitiado da cidade uma caixa de bolachas sortidas que pretendia oferecer aos homens barricados numa das primeiras linhas de defesa da praça da Independência. Não conseguiu. Foi obrigada a parar o pequeno Peugeot vermelho nas imediações da rua Zhytomyrska para deixar passar um cortejo fúnebre.

Natalia soltou um choro descontrolado ao ver os caixões abertos levados em ombros. Não foi a única. Centenas de pessoas assistiram em lágrimas ao desfile das urnas de vários dos ativistas baleados na manhã de quinta-feira por atiradores furtivos. Os caixões abertos deixavam ver claramente as marcas de bala nas cabeças. Estes sinais precisos de morte voltaram a indignar uma praça inteira. "Não adianta virem agora com acordos. O sangue correu entre nós e nada nos fará esquecer estas mortes" dizia, quase a gritar, Stanlislau Boyko, numa pausa para descanso na tenda imunda onde dorme há quase um mês.

É o banho de sangue de anteontem que faz a oposição desconfiar das intenções do presidente ucraniano anunciadas um dia depois da carnificina. De tal forma que ninguém arredou pé das barricadas de carros queimados, pneus, sacos de areia e blocos de pedra que isolam a praça da Independência do resto de Kiev.

Ouça o relato do enviado do JN em Kiev após a notícia do acordo.

No perímetro da contestação, o dia cumpriu-se com o habitual rigor militar. Os manifestantes elevados à condição de milicianos marcham pelas várias barricadas com escudos improvisados ou subtraídos às forças de intervenção. A trégua policial permite agora algum descanso adicional nas trincheiras. Já há quem durma e a população começa a circular com relativa facilidade para distribuir comida e bebidas quentes. Oleg Gogol apoia a rebelião, apesar de não ser um residente nas tendas da praça. "Moro fora da cidade, mas venho aqui sempre que posso. E hoje [ontem] vim porque estamos perto da vitória", acredita. E tanto assim é que, desta vez, quer uma foto na praça junto à entrada fechada do metro onde repousam dezenas de garrafas cheias de gasolina. Faz V com os dedos e explica: "É para mostrar em casa aos miúdos. Eles também queriam vir, mas tenho medo".

Acordo foi meia vitória

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Na praça da Independência viveu-se ontem uma sensação de meia vitória. Muitos dos manifestantes já quase não acreditavam numa cedência do presidente Vitor Ianukovich e agora que ele aceitou negociar acham que o recuo deveria ter sido ainda mais radical. "Vamos ver o que se decide nos próximos dias. Estamos todos muito ansiosos. E também muito desconfiados", sintetizou Gogol.

Radicais rejeitam negociação

A ala mais radical dos opositores ao Governo ucraniano fez, já ontem à noite, um ultimato aos líderes da oposição para que exijam em menos de doze horas a demissão imediata de Ianukovich. "Falo em nome do meu movimento. Se antes das 10 horas [8 horas, em Portugal] de sábado não houver uma declaração que exija a demissão imediata de Ianukovich, tomaremos as armas", exigiram.

Manhã com confrontos

De manhã, um grupo de polícias juntou-se aos protestos. Um ato aplaudido pelos manifestantes que não arredam pé da Praça da Independência. Ouça aqui o relato do enviado do JN a Kiev.

Antes voltaram a ouvir-se tiros e as barricadas eram construídas com muros de pneus, trazidos a um ritmo constante para a Praça da Independência.

Uma coisa parece certa: os manifestantes não vão arredar pé até que o presidente ucraniano Viktor Ianukovych abandone o poder.

Fora do perímetro da Praça da Independência, a cidade funciona quase normalmente. Os transportes públicos circulam com algumas limitações, os estabelecimentos comerciais abriram normalmente e percebe-se que uma grande parte da população da cidade está ao lado dos revoltosos.

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