Pandemia

Nova Zelândia dificulta viagens de regresso: "Se não for rico, não volte"

Nova Zelândia dificulta viagens de regresso: "Se não for rico, não volte"

A Nova Zelândia vai passar a cobrar uma taxa de 3100 dólares neozelandeses, que equivalem a cerca de 1830 euros, a quem entrar no país e quiser voltar a sair num período de seis meses, substituindo o limite anterior de três meses de permanência. Os neozelandeses no estrangeiro reagiram com desespero às novas medidas do governo, afirmando que só funcionam para quem for "rico".

As medidas, anunciadas na quarta-feira, implicam que as pessoas que voltam do estrangeiro permaneçam no país durante pelo menos seis meses, em vez dos três anteriores, para ficarem isentas da taxa de quarentena. O governo afirmou que a mudança ajudará a tornar o sistema de isolamento administrado "mais sustentável financeiramente".

Para os neozelandeses no estrangeiro que queiram visitar a família ou simplesmente passar uns dias no seu país, a medida torna-se uma nova barreira para o regresso a casa. O jornal britânico "The Guardian" dá o exemplo de Owen Williams, um neozelandês que mora no Canadá e trabalha na área da tecnologia, para quem a mudança das regras tornou financeiramente inviável uma visita a casa. Só os voos custam cerca de 1772 euros, mais 160 euros para um teste covid antes da partida e outros custos gerais de mudança.

"Mudar para seis meses é simplesmente impraticável com o custo extra do MIQ [isolamento e quarentena administrados], torna impossível o regresso a casa antes que tudo isto acabe, o que parece ser o objetivo", afirmou Williams. "A mensagem é muito clara: mesmo que seja um cidadão, se não for rico, não volte".

O neozelandês a viver no Canadá explicou que não se opõe a uma taxa para quem visita o país por um curto período de tempo ou entra e sai de férias, mas alerta que as novas medidas podem tornar a viagem inacessível para muitos neozelandeses que desejam trabalhar em casa temporariamente, manter vistos no exterior ou visitar parentes. O Ministério de Negócios, Inovação e Emprego disse acreditar que as novas taxas serão pagas por cerca de 3 por cento dos repatriados.

A Nova Zelândia exige que qualquer pessoa que entre no país passe duas semanas numa instalação de isolamento administrado. O sistema já é de difícil acesso, ao exigir uma reserva online, com disponibilidade para os próximos quatro meses. Geralmente todas as vagas estão já reservadas e novas vagas podem desaparecer em minutos.

Segundo o "The Guardian", vários grupos de Facebook com mais de 20 mil membros surgiram para ajudar as pessoas a regressar ao país e negociar reservas no isolamento administrado. Algumas pessoas contam que ficam sentadas em frente ao computador durante horas todos os dias, à espera que apareça uma data viável.

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Na quarta-feira, utilizadores das redes sociais reagiram às novas medidas com raiva e tristeza. "Bem, esses são os planos para os meus pais conhecerem o seu primeiro neto pela janela num futuro próximo", escreveu um utilizador no Twitter. "Agora, para ver a minha família, que não vejo há mais de dois anos, basicamente tenho de deixar o meu emprego e correr o risco de perder o meu visto canadense", lamentou outro.

Muitos neozelandeses retidos no estrangeiro vivem em confinamento durante meses, com alto risco de infeção, dificuldades económicas e mortes que chegam a centenas de milhares. Em países como os EUA, as taxas de depressão e ansiedade aumentaram cerca de 11%. Para alguns expatriados, ver a possibilidade de voltar para casa cada vez mais distante afeta o psicológico e a saúde mental.

"É como se estivéssemos a ser castigados por não voltarmos imediatamente, ou por precisarmos de ver as nossas famílias para uma pausa depois de 14 meses de uma vida angustiante sem fim", criticou Williams, descrevendo um "sentimento muito estranho e solitário". "Gostaria que houvesse um pouco mais de empatia", desabafou.

No ano passado, o sistema administrado de isolamento e quarentena custou à Nova Zelândia cerca de 1,4 milhões de euros por dia.

Em comunicado, um porta-voz do MIQ esclareceu ao "The Guardian" que a mudança resultaria em cerca de 3,5 milhões de euros extra em receita por ano. "Embora não seja uma grande quantia, apoia ainda mais um sistema de qualidade, permitindo que o governo recupere alguns dos custos do MIQ e torne o sistema mais sustentável", alegaram.

As taxas foram inicialmente introduzidas porque "não era sustentável para o governo e os contribuintes continuarem a financiar todos os custos". O ministério pode conceder isenção total ou parcial das taxas em casos de dificuldades financeiras ou circunstâncias excecionais.

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