Investigação

Num ano desperdiçaram-se 931 milhões de toneladas de comida no Mundo

Num ano desperdiçaram-se 931 milhões de toneladas de comida no Mundo

17% da comida disponível no mundo - em supermercado, armazéns e restaurantes - foi desperdiçada. Os números partilhados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) tornam-se ainda mais alarmantes, quando 14% da comida é desperdiçada antes mesmo de chegar aos pontos de venda. Contrariando expectativas, esta não é uma situação habitual apenas nos países ricos. O desperdício está "em todo o lado".

A investigação não se fica apenas por apontar o desperdício alimentar como uma questão moral ou como desvalorização dos recursos necessários para fazer os alimentos, e vai mais longe: "O desperdício alimentar é responsável por 8-10% das emissões globais. Ou seja, se o desperdício fosse um país ele seria o terceiro maior emissor de gases de efeito de estufa do planeta", apontou Richard Swannell. O porta-voz da organização sobre sustentabilidade, WRAP, parceira da ONU, acrescentou ainda que "este é um problema bastante maior do que aquilo que era estimado".

Os testemunhos que encaram o desperdício alimentar como uma das prioridades para controlar as alterações climáticas fazem-se somar. "Se queremos estar comprometidos na hora de falar das alterações climáticas, da natureza, da perda de biodiversidade, da poluição, do desperdício, então as empresas, o governo e os cidadãos do mundo inteiro têm que fazer a sua parte", afirmou Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA.

A quantidade de desperdício de alimentos "per capita" é muito semelhante em todos os lares independentemente do rendimento, sugerindo este como um "problema global", não exclusivo a países desenvolvidos, adianta a agência EFE. São desperdiçados "per capita" 121 quilos de alimentos anuais. "Se a comida desperdiçada for colocada em 23 milhões de camiões de 40 toneladas, unidos uns aos outros, seriam suficientes para dar a volta à Terra sete vezes", compara o relatório das Nações Unidas.

Dos 931 milhões de toneladas de alimentos desperdiçados, mais de metade são rejeitados no uso doméstico. Estes números ganham ainda mais relevância se forem contrastados com o relatório, lançado por cinco agências da ONU, sobre o "Estado da Insegurança Alimentar e Nutricional no Mundo de 2019", que constatou que 820 milhões de pessoas no mundo foram atingidas pela fome. "Este indicador vai além da fome e fornece uma estimativa do número de pessoas sem acesso estável a alimentos nutritivos e suficientes durante todo o ano", afirmou o relatório.

"Há muitas intervenções eficazes demonstradas numa ampla gama de países, com reduções de até 30% no desperdício de alimentos domésticos", disse à EFE Clementine O'Connor, especialista do PNUMA. A Cimeira dos Sistemas Alimentares da ONU, convocada pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para setembro, está a analisar possíveis opções de sensibilização, essenciais para o cumprimento de todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. "Está na hora de mudar a forma como produzimos e consumimos", escreveu a ONU.

Contudo, existem brechas na investigação capazes de comprometer os resultados e torná-los ainda mais expressivos. Durante o estudo não foi possível distinguir o desperdício voluntário e involuntário, por exemplo. Ainda assim, são várias as medidas, apontadas pela Associação Portuguesa dos Nutricionistas, que podem amenizar a situação:

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- Planear as refeições e elaborar a lista de compras antes de ir ao supermercado;
- Consultar o prazo de validade de todos os produtos, escolhendo os de prazo mais alongado;
- Preferir alimentos vendidos a granel.

Para os casos em que o desperdício alimentar é considerado como voluntário, o confinamento pelo novo coronavírus trouxe uma vantagem: de acordo com a investigação da WRAP, planear, controlar stocks e cozinhar conseguiu reduzir 22% do desperdício alimentar feito a partir de casa, em comparação com 2019. Contudo, alerta a organização, "os números podem voltar a subir mal o confinamento termine".

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