Repatriamento

O aperto português em Maputo: "Durmo num sofá, vendi a minha cama"

O aperto português em Maputo: "Durmo num sofá, vendi a minha cama"

Portugueses em Maputo, com problemas de saúde e dificuldades financeiras, tentam regressar a Portugal há quase um mês. O ministro dos Negócios Estrangeiros disse hoje que já pediu autorização a Moçambique para realizar um voo de repatriamento.

Pedro G., 33 anos, dez dos quais a viver e trabalhar na capital moçambicana, tem uma operação de urgência para fazer em Portugal. Cancelados os voos comerciais por causa da pandemia, é um dos 200 portugueses que aguardam, em "situação urgente", por um voo de repatriamento, estima. Entre eles, há doentes oncológicos, grávidas a entrar nas últimas semanas de gestação, pessoas com intervenções cirúrgicas marcadas. "São cerca de 50 ou 60 com questões médicas, umas mais graves do que outras, a precisarem de viajar para Portugal o mais rapidamente possível", contou ao JN o empresário, que tem vindo a fazer o levantamento do número de pessoas que quer regressar e porquê.

Ao todo, serão cerca de 600, mas a maioria não é prioritária - são pessoas que tinham passagens e férias marcadas e que viram os planos cancelados. Ainda assim, há duas centenas de cidadãos lusos tramados pela saúde ou pela carteira, a maioria em Maputo, mas também na Beira e em Nampula.

Quando as empresas moçambicanas foram apanhadas pela crise causada pela pandemia, os trabalhadores mais afetados foram os que tinham "contratos que se regem por regras das leis laborais locais", estando por isso mais vulneráveis ao despedimento. "Há pessoas que ficaram em situações bastante precárias. A cada dia que passa, é um esforço estarem cá".

É o caso de Rita Filipe, 47 anos, organizadora de eventos, a quem a pandemia trouxe "uma quantidade enorme de problemas". A falta de trabalho, que lhe cortou 75% do salário, e o cancelamento do voo que tinha marcado para Portugal não lhe deram outro remédio senão vender o recheio da casa onde vive com o filho de 18 anos e fazer as malas. "Eu durmo num sofá, vendi a minha cama. Vivo num acampamento. Não havendo emprego, não há meios de subsistência", desabafou. O que ganha só chega "para comer" e as outras despesas mantêm-se. "Ou se come ou se paga a renda e a eletricidade". Em Portugal, onde espera voltar em breve e de vez, teria o apoio de familiares. Para os que ficarem, vai ser difícil continuar, lamenta.

Regresso está para breve

Pedro e Rita integram o grupo de portugueses que começou a contactar os serviços consulares no dia 30 de maio, quando o estado de emergência foi prorrogado, mantendo cancelados os voos internacionais. O problema, aponta o empresário, foi sempre a "comunicação nula" com a comunidade: "Durante cerca de um mês, foi um total silêncio", aumentando o "clima de inquietação e ansiedade". Só quebrado esta sexta-feira, quando a Embaixada de Portugal em Maputo comunicou ter solicitado às autoridades moçambicanas autorização para a realização de um voo de repatriamento coordenado pelo Estado português, "no mais breve prazo possível". "Estão também a ser identificadas as situações de maior carência, no sentido de ser prestada uma resposta humanitária urgente ao nível local a esses cidadãos", acrescentou.

Além disso, disse hoje o ministro dos Negócios Estrangeiros, já foi manifestada às autoridades moçambicanas a vontade de se reatar a ligação comercial regular entre Maputo e Lisboa, aguardando-se agora decisão de Moçambique.

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