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O Ártico está a evaporar-se, a perder-se

O Ártico está a evaporar-se, a perder-se

"Vimos como a calote polar morre durante o verão..." É o balanço mínimo, curto mas cruel, da expedição Mosaic, que explorou o Ártico ao longo de 389 dias a bordo do Polarstern, um quebra-gelo alemão que assistiu ao inesperado: a falta dele, do gelo.

A missão chegou agora a porto seguro e tem meses pela frente para analisar dados, mas o balanço é incontornável. "Se as alterações climáticas continuarem como estão, em algumas décadas teremos um Ártico sem gelo no verão".

Era o líder da expedição Internacional Multidisciplinary drifting Observatory for the Study of Arctic Climate, Markus Rex, quem desabafava, ainda inundado pelas visões que teve, de uma calote "derretida, fina, a desfazer-se", o Ártico feito em lagos "a perder de vista".

Porque "o inverno ártico está dez graus mais quente do que há 25 anos". Agora é Antje Boetius quem fala, ao diário espanhol "El País", ao qual relata o que ouviu dos investigadores. Dirige o instituto alemão Alfred-Wegener, coordenador da expedição que constatou que a placa de gelo polar tem metade da espessura de há 40 anos.

"Os cientistas foram testemunhas das mudanças no Ártico durante o inverno, quando quase ninguém tem acesso ao Pólo Norte e onde o oceano não tem estações meteorológicas, e puderam fazer observações assombrosas". Os dois graus impostos pela comunidade internacional como limite para o aquecimento global são, no Ártico, uma sombra da realidade. Porque ali tudo parece ir mais depressa. A paisagem ameaça "perder-se para sempre". "O que viram foi um novo Ártico, diferente daquele que conhecíamos" e tornou-se até perigoso para a navegação.

Centenas de cientistas

Pelo navio à deriva com o gelo passaram, por turnos, 442 investigadores de 20 países. Puderam assistir ao ciclo completo do degelo, passaram meses a fio no breu e recolheram 150 terabites de dados sobre o oceano, a atmosfera, a calote e o ecossistema, para analisar nos próximos meses. Ou anos. Objetivo: estabelecer modelos climáticos, para antecipar fenómenos extremos. Para começar, a tripulação observou a formação do maior buraco de ozono na região. Resta tentar explicar porquê.

A expedição partiu de Tromso, na Noruega, em 20 de setembro de 2019. Muita noite e 60 ursos polares depois, atracaram anteontem em Bremerhaven, na Alemanha. O regozijo foi mitigado.

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