Pandemia

O difícil processo de recuperação da covid-19

O difícil processo de recuperação da covid-19

Recuperar da covid-19 é um processo longo e bastante difícil para o paciente. Depois de enfrentar a doença, o desafio seguinte é a reabilitação.

Os pacientes que sobrevivam ao novo coronavírus têm um caminho atribulado pela frente em torno da recuperação. Enfrentam complicações respiratórias, musculares e psicológicas e esses sintomas podem persistir durante meses, anos ou até manterem-se para o resto da vida.

Vários médicos explicaram ao "The New York Times" o percurso por que passam alguns do pacientes covid-19 após receberem alta hospitalar.

Problemas que os doentes enfrentam depois de sair do hospital

Quem sai do hospital, embora recuperado do vírus, ainda enfrenta uma série de problemas.

A covid-19 causa vários danos e inflamações no corpo. Pulmões, coração, rins e fígado são os principais órgãos afetados. Fadiga respiratória é comum, causada pela fragilidade do coração e dos pulmões. A tosse é recorrente e é difícil de desaparecer, o que dificulta mais a respiração dos pacientes.

Os doentes que estiveram ligados a ventiladores podem sentir dificuldades em engolir e falar com um volume acima do suspiro. Isto é resultante de danos ou inflamação que os tubos dos ventiladores causam.

Dale Needham, médico da Johns Hopkins School of Medicine, explica que os músculos, incluindo os respiratórios, ficam fracos após o corpo estar muito tempo deitado numa cama. Atividades como caminhar, subir escadas e levantar objetos tornam-se difíceis.

O novo coronavírus causa também alguns problemas a nível psicológico. Fatiga e confusão mental são comuns, e alguns pacientes reportam terem dificuldades em concentrar-se no trabalho, como explica Zijian Chen, médico no Egito.

Pesadelos, depressão e ansiedade também podem ser causas da covid-19, visto que os pacientes têm frequentes memórias das dificuldades que enfrentaram.

"A experiência de estar extremamente doente e sozinho aumenta o trauma nos pacientes. Muitos dizem-me que não são eles próprios e precisam de ter contacto com alguém", referiu David Putrino, médico em Nova Iorque, em entrevista ao "New York Times".

Quais são as pessoas com maior probabilidade de enfrentar problemas na recuperação?

Pacientes que já tenham outras patologias ou que precisem de cuidados hospitalares mais longos têm uma maior probabilidade de enfrentarem estas dificuldades na recuperação.

No entanto, não são apenas idosos ou pessoas com outras patologias que têm dificuldades. Os pacientes que tenham passado semanas ligados a ventiladores também ficam internados depois de os tubos respiratórios serem removidos.

O delírio hospitalar também é um grande obstáculo para a recuperação dos pacientes da covid-19. Estas pessoas podem ter alucinações e ficarem confusas devido ao longo tempo que passaram internados, muitas vezes sedados. Consequentemente, podem ter dificuldades cognitivas depois de saírem do hospital.

O trajeto irregular da recuperação

O processo de recuperação não é linear e, como tudo, tem altos e baixos e depende muito da pessoa. Lauren Ferrante, médica em Yale, explica que passar o dia na cama apenas dificulta ainda mais a recuperação dos pacientes.

"Vai haver dias em que tudo está bem com os pulmões, mas as articulações vão estar doridas. Então o paciente não se vai conseguir levantar e fazer a sua recuperação pulmonar. Logo, vai ter alguns contratempos. Ou então a recuperação pulmonar está a correr bem mas as dificuldades cognitivas causam ansiedade. O paciente tem de parar tudo e trabalhar com o seu neuropsicológico", explicou David Putrino.

Duração dos problemas de saúde

Os pulmões da maior parte das pessoas recupera passados uns meses.

Um estudo realizado em 2011 com pacientes de síndrome respiratória aguda, que tem repercussões pulmonares semelhantes às da covid-19, concluiu que nenhum dos testados, com idades compreendidas entre os 35 e 57, conseguiu recuperar os níveis físicos normais cinco anos depois.

Os doentes com esta doença passaram uma média de 49 dias no hospital, 26 dias nos cuidados intensivos e 24 dias com um ventilador. Dois terços destes pacientes ainda sente uma grande fadiga um ano depois da recuperação.

Cerca de metade destes testados mostrou ter sintomas de depressão, ansiedade, ou ambos, dois e cinco anos depois.

Consequências enfrentadas

Um terço das 64 pessoas testadas no estudo a pacientes com síndrome respiratória aguda nunca regressaram ao trabalho nos cinco anos após o diagnóstico da doença. Alguns tiveram mesmo de mudar para trabalhos que fossem menos exigentes e com um pagamento reduzido.

"Uma nova doença grave ou um evento catastrófico podem causar sintomas que duram imenso tempo. Isto está a tornar-se em algo que pode vir a ser pior do que a epidemia da SIDA ou do ataque a 11 de setembro", disse Zijian Chen.

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