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Alberto Carvalho

O emigrante português que bateu o pé a Trump para defender os alunos

O emigrante português que bateu o pé a Trump para defender os alunos

Alberto Carvalho deixou Portugal nos anos 80 do século passado para conhecer o Mundo. Agora, 40 anos depois, o homem que enfrentou uma ordem de Trump e bateu o pé a um tribunal para defender uma imigrante foi escolhido para liderar o Distrito Unificado Escolar de Los Angeles, o segundo maior dos Estados Unidos.

"É como a chegada do LeBron James aos Lakers". A frase, de Pedro Noguera, reitor da Escola de Educação Rossier, da Universidade do Sul da Califórnia, resume a importância da "transferência" do emigrante português Alberto Carvalho de superintendente do Distrito Escolas de Miami para superintendente de Los Angeles.

O paralelo entre Alberto Carvalho e LeBron James, um dos maiores basquetebolistas dos EUA, nomeado atleta da primeira década do novo milénio, não fica pelas conquistas da vida adulta. Ambos tiveram vidas duras, marcadas pela pobreza. LeBron cresceu sem pai, filho de uma mãe adolescente, e encontrou no basquetebol a saída da pobreza. Para Alberto, o bilhete dourado estava no ensino e foi-lhe colocado nas mãos calejadas e sujas de sem-abrigo por um professor que o resgatou à indigência que ameaçava devorá-lo na adolescência pouco depois de aterrar nos "states".

Da pobreza no Bairro Alto a sem-abrigo nos EUA

Alberto Carvalho nasceu no Bairro Alto, em Lisboa, em 1964. Um de seis irmãos de uma família pobre, que vivia numas águas furtadas do agora popular bairro lisboeta, completou o ensino secundário e partiu à aventura.

Tinha 17 anos quando aterrou no aeroporto "JFK International", em Nova Iorque. Quatro horas depois, estava em Manhattan a lavar pratos num restaurante - como nos filmes e séries americanas; o emprego de migrantes, indocumentados ou indigentes.

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Trabalhou também na construção civil, antes de o visto caducar. Menor de idade, sem autorização de permanência nos EUA, foi coberto pelo manto diáfano que esbate oportunidades de tantas vidas. "Dormi na rua, debaixo da ponte, durante mês e meio, por isso sei exatamente o que é ter o chão como colchão e as estrelas como cobertor", recordou Alberto Carvalho, numa entrevista ao "Diário de Notícias", em 2018.

Não falava uma palavra de inglês. Um professor mudou-lhe a vida. Tirou das ruas, ajudou-o a legalizar-se e a estudar. Estudou no Colégio Broward e na Universidade de Barry, onde se formou em Biologia, em 1990. Estava a encaminhar-se para uma carreira na medicina quando aceitou dar aulas como professor de Físico-Química no liceu "Jackson Senior", em Miami.

"O bichinho do ensino infetou-me" disse numa entrevista ao "74", um site de notícias sem fins lucrativos sobre o ensino nos EUA. Entusiasmado com a carreira na educação, subiu depressa e até ao topo. Foi vice-reitor e ascendeu a superintende das escolas do Distrito Escolar de Miami-Dade (M-DSD, na sigla original), em 2008.

Quando assumiu o cargo, o distrito escolar de Miami estava num turbilhão financeiro e com dezenas de escolas entre as piores dos "rankings" nacionais, com notas D e F (as mais baixas na escala norte-americana). Em 2018 e 2019, Miami-Dade teve A (nota máxima) e todas as escolas com avaliações positivas.

Em 13 anos, a taxa de alunos que terminam o secundário, que fazem a chamada "Graduation", cerimónia amplamente retratada na cultura cinéfila norte-americana, subiu para 89%, mais de 30 pontos percentuais acima do que tinha quando Carvalho assumiu o poder no distrito escolar da Miami-Dade.

O professor luso-americano não esquece as origens, insistindo em ser chamado de Alberto, quando seria mais fácil o anglo-saxónico Albert, nem renega o passado de indocumentado. Em 2012, ameaçou demitir-se quando um tribunal ordenou a deportação de Daniela Pelaez, uma jovem imigrante sem documentos que tinha sido a melhor aluna do ano. Daniela não foi deportada e, meses depois, o então presidente dos EUA, o democrata Barack Obama, aprovou o programa DREAMers (Sonhadores) destinado a proteger imigrantes sem documentos da deportação.

Um sinal de que para Carvalho os direitos dos estudantes imigrantes são uma questão de honra. Em Miami-Dade, onde muitos dos alunos são filhos de imigrantes da América Latina, o superintendente opôs-se à perseguição da administração Trump aos indocumentados, declarando que não permitiria qualquer intervenção federal nas escolas que tutorava. "Só por cima do meu cadáver", disse, em direto na televisão.

Alberto não é de evitar a confrontação. Conhecido pelo estilo direto e determinado, opôs-se, no ano passado, ao Governador da Florida, o republicano Ron DeSantis, que proibiu o uso de máscaras nas escolas durante a pandemia, ameaçando reter os salários de quem não cumprisse esta ordem. "De forma alguma poderia permitir que a minha decisão fosse influenciada pela ameaça ao meu ordenado", disse. "É um pequeno preço a pagar considerando a gravidade do assunto e o potencial impacto na saúde e bem-estar dos nossos alunos e dedicados empregados", disse, num comunicado enviado à delegação de Miami da estação de televisão CBS.

Defensor da liberdade de escolha, incentivou as famílias pobres a usarem "vauchers" para frequentar as escolas dos ricos. É conhecido por recorrer a métodos pouco convencionais e apodado de "campeão dos direitos dos estudantes indocumentados", com quem partilha um pedaço do próprio passado nas ruas de Nova Iorque.

"Damos almoço e pequeno-almoço de graça, sem fazer perguntas, foi algo que impus porque sei, sobretudo agora, que há imensas crianças que não têm documentos e têm medo que as suas famílias sejam descobertas. É importante que elas comam para serem saudáveis e conseguirem concentrar-se e aprender", disse, na mesma entrevista ao DN, em 2018, numa altura em que estava a ser cobiçado para dirigir o distrito escolar de Nova Iorque, a porta que os EUA lhe entreabriu na adolescência.

No que foi considerado como "Carvalho Show", o professor luso-americano recusou a oferta do "mayor" de Nova Iorque Bill de Blasio numa conferência de imprensa transmitida em direto pelas televisões. "Vou ter de quebrar um acordo de adultos para honrar um acordo e um pacto que tenho com as crianças de Miami", justificou.

Noguera acredita que Carvalho recusou a proposta da "Big Apple", em 2018, porque não queria ter de lidar com a microgestão de Blasio, queria mais liberdade. Ao contrário de Nova Iorque, o "mayor" não manda em Los Angeles - o conselho escolar tem uma direção a tempo inteiro e eleições que angariam milhões de dólares.

Um novo desafio em Los Angeles

Em Miami-Dade, comandou mais de 340 mil alunos e 52 mil funcionários. Alberto Carvalho vai encontrar um desafio muito diferente em Los Angeles, um distrito escolar com mais de 600 mil alunos, marcado por perdas globais ao nível da aprendizagem, problemas de saúde mental entre os alunos e um conhecido e notório Sindicato dos Professores (UTLA, na sigla original) que costuma liderar as negociações.

O LAUSD, numa nota sobre o passado de Alberto Carvalho, recordou que o português tem "uma história semelhante à de muitos estudantes de LA", marcados pela pobreza, pela falta de estrutura familiar e pela falta de documentos.

A presidente da UTLA Cecily Myart-Cru, ergueu a bandeira branca em sinal de paz e disse, em comunicado, que o sindicato "está pronto a trabalhar" com Carvalho. "Com o objetivo de elevar o nível da educação em LA e construir um sistema racialmente justo, com recursos suficientes para fazer da escola um pilar da comunidade, em que os educadores são valorizados, as famílias apoiadas e os estudantes têm os recursos que necessitam para vencer", acrescentou.

O ativista da Educação Ben Austin, que está a lutar para que os alunos tenham todos a oportunidade de ter uma educação de qualidade, reconhece a "impressionante reputação" de Carvalho, eleito Superintendente do Ano, em 2014, mas deixa um alerta. "LAUSD é um buraco negro político com um historial de engolir carreiras e líderes talentosos."

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