Abusos

O escândalo sexual que está a abalar o desporto em França

O escândalo sexual que está a abalar o desporto em França

A autobiografia de Sarah Abitbol, nome grande da patinagem artística em França, veio desvendar anos de abusos sexuais no seio deste desporto. Aos 44 anos, a antiga atleta revela no livro "Um Tão Longo Silêncio" que foi violada na adolescência pelo treinador. A revelação motivou uma nova investigação e a demissão do presidente da Federação Francesa de Patinagem no Gelo.

"Ele começou a fazer coisas horríveis que se tornaram em abuso sexual", conta a antiga patinadora artística em entrevista à revista francesa "Le Nouvel Observateur". Aos 44 anos, Sarah Abitbol libertou-se finalmente do peso que carregava desde a adolescência com a publicação na semana passada do livro "Um Tão Longo Silêncio", onde relata ter sido vítima de abusos sexuais por parte do seu treinador Gilles Beyer.

Beyer, também ele patinador artístico e campeão olímpico na década de 70, é acusado por Sarah Abitbol de a ter violado entre 1990 e 1992, quando era seu treinador e tinha cerca de 30 anos. "Foi a primeira vez que um homem me tocou", conta a atleta, que terá sido abusada pela primeira vez quando tinha 15 anos.

A revelação de Abidbol (dez vezes campeã nacional de França) não caiu em saco roto: mais duas antigas patinadoras revelaram que também foram abusadas quando eram menores por dois treinadores, Jean-Roland Racle e Michel Lotz. O primeiro negou as acusações, enquanto o segundo não comentou o caso.

A antiga patinadora Hélène Godard, hoje com 54 anos, juntou-se às acusações da colega Sarah Abitbol e revela que não foi só foi violada pelo mesmo homem, Gilles Beyer, como também por outro treinador de patinagem. Godard conta ter sido forçada por Beyer a ter relações sexuais, na década de 70, e quando tinha 13 anos de idade.

No livro "Um Tão Longo Silêncio", o treinador é retratado por Abitbol como um predador sexual. "Durante dois anos, tu dizias à minha mãe: 'Hoje vou ser babysitter da Sarah para podermos treinar'. E tu violaste-me no parque de estacionamento, nos balneários e em cantos e recantos da pista de gelo, que nunca suspeitei que existissem", escreve a ex-atleta.

Os casos revelados quase 30 anos depois denunciam uma cultura de encobrimento por parte da Federação Francesa de Patinagem no Gelo, que já provocou a demissão do seu presidente Didier Gailhaguet, este sábado, pressionado pela ministra francesa do Desporto, Roxana Mărăcineanu.

A Procuradoria-Geral de Paris abriu uma investigação à alegada conduta de Gilles Beyer, acusado de violação e agressão sexual. Apesar de alguns dos casos já terem provavelmente prescrito, as autoridades querem tentar descobrir se existem vítimas recentes. O antigo campeão olímpico treinou até 31 de janeiro do ano passado a equipa francesa French Volants.

A má conduta sexual não foi só dirigida a atletas

Gilles Beyer nunca esteve verdadeiramente afastado das polémicas e das suspeitas de má conduta sexual. No início do ano 2000, o treinador foi sujeito a duas investigações, que não tiveram resultados concretos. Beyer continuou a trabalhar na Federação Francesa de Patinagem no Gelo até 2018, em cargos executivos e como organizador de vários eventos, apesar de ter sido dispensado pelo Ministério do Desporto em 2001.

O comportamento tido como "desviante" do treinador chegou a ser denunciado por uma mãe de um atleta, que o acusou de assédio sexual, entre 2017 e 2018. Gilles Beyer terá proposto aulas gratuitas em troca de favores sexuais, de acordo com o jornal desportivo francês "L'Equipe". "Ele sabia que eu tinha poucos meios e queria aproveitar-se da situação. Senti-me humilhada", contou a progenitora.

O presidente demissionário da federação, Didier Gailhaguet, defendeu-se das acusações de encobrimento e afirmou que ninguém sabia das ações e atitudes do treinador. "No espírito de conciliação, tomei a decisão sensata de renunciar com filosofia, dignidade, mas sem amargura", acrescentou esta segunda-feira, quando anunciava a demissão.

A atual ministra do Desporto terá tido uma quota-parte de responsabilidade no afastamento de Gailhaguet. De acordo com o "The Guardian", Roxana Mărăcineanu terá dito ao então presidente da Federação Francesa de Patinagem no Gelo que este não poderia absolver-se "da sua responsabilidade moral e pessoal".

Didier Gailhaguet culpou a antiga ministra do Desporto, Marie-George Buffet, por ter deixado que em 2001, Gilles Beyer continuasse a trabalhar ativamente na federação. O treinador agora acusado foi inclusive nomeado líder de equipa no Campeonato Mundial Júnior de 2011, realizado na Coreia do Sul.

Face às recentes acusações, o treinador reagiu em declarações à agência de notícias "AFP", esta sexta-feira. Beyer admitiu ter "relações íntimas" e "inadequadas" com Sarah Abitbol.

O escândalo sexual provocou várias reações na França e ao mais alto nível político. Além de vários atletas de topo terem escrito uma carta de solidariedade para com a antiga patinadora artística, também a primeira-dama da França mostrou estar atenta. Brigitte Macron terá recebido o livro "Um Tão Longo Silêncio" e convidou Sarah Abitbol para um encontro no Palácio do Eliseu. A ex-atleta revelou mais tarde à imprensa que Brigitte Macron ficou sensibilizada com a história e disse querer evitar casos semelhantes.

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