Argentina

O mistério de Mathieu Martin, o viajante que nunca mais foi visto

O mistério de Mathieu Martin, o viajante que nunca mais foi visto

Viajava por sua conta desde os 15 anos e já tinha conhecido cerca de 70 países. Desde o inverno de 2018 que não era visto. Esta terça-feira, o francês Mathieu Martin, de 32 anos, foi dado como morto pelo Tribunal argentino de Salta, que condenou um habitante local a 13 anos de prisão pela sua morte sem motivo aparente. O corpo nunca foi encontrado.

A família de Mathieu Martin não aceita a tese de homicídio, na paisagem remota da província argentina de Salta, no noroeste daquele país sul-americano. "Estamos aqui, nada nos vai parar em tua busca. Amamos-te", assinam os pais e a irmã do jovem. As palavras remetidas desde França foram lidas no julgamento pelo advogado da família. Não tendo sido achado o corpo, consideraram não haver provas irrefutáveis contra os dois irmãos acusados do crime (um condenado e outro absolvido), pedindo a sua absolvição.

Contudo, esse não foi o entendimento do tribunal, que deu como provada a culpa de um dos irmãos, Juan Cuevas, de 39 anos. Condenou o arguido a 13 anos de prisão e mandou inscrever a morte de Mathieu Martin no Registo Civil, o que altera a sua condição de desaparecido e dá por terminada a investigação mais ambiciosa da justiça penal de Salta, conta a correspondente na Argentina do diário espanhol "El País".

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Mathieu era dado como uma pessoa amigável, cautelosa e humilde. Gostava de conhecer gente e explorar culturas diferentes, sem se aventurar em proezas desportivas nem em riscos. Assim, foi descrito por familiares, conhecidos e populares com quem se cruzou nos dias anteriores à sua morte. Perante os juízes, testemunharam professores, profissionais de saúde, jornalistas, camponeses e até pastores que nunca tinham saído das suas aldeias.

Por aquelas andanças, onde as estradas são caminhos, a vida austera varia entre a criação de animais e o cultivo de batata, milho e feijão. Alguns contaram que nunca tinham visto um turista antes, o que ajudou a fixar a imagem e o sotaque de Mathieu. Foi assim que a justiça conseguiu reconstituir o seu percurso desde o dia em que perdeu o contacto com a sua família, a 8 de agosto de 2018, quando andava em Tilcara, até Huacaloma, onde seria morto a caminho de Iruya.

Nesta remota localidade, onde nem chega a rede de telefone, os únicos habitantes são os irmãos Rosa, Juan e Froilán Cuevas. Acampou por ali perto.

Arguidos confessaram crime

A confissão do homicídio à polícia deu-se meses depois, em dezembro de 2018. "Diz-lhes porque mataste o francês", disse Froilán Cuevas ao irmão, cita o "El País". "Porque sou estúpido", respondeu Juan. Depois, os dois irmãos explicaram os contornos do crime. Que Juan apunhalou Mathieu à traição em El Chorro - uma ravina a 1300 metros de suas casas - e o empurrou de uma altura de quase 40 metros para o fundo de lajes pontiagudas. Que ali o enterraram. Mas, apesar das escavações no local pela polícia, o corpo não foi encontrado.

Os irmãos Cuevas ficaram em prisão preventiva e ainda tentaram reverter a confissão em julgamento, alegando que foram forçados pela polícia a assumir o crime, mas a sentença deu como provado que Mathieu foi morto por Juan. Froilán, de 41 anos, foi absolvido perante a dúvida do seu envolvimento.

Os irmãos eram conhecidos por serem dependentes de "cachila" (álcool etílico com água), por serem conflituosos e por importunarem com agressividade os transeuntes, a exigir dinheiro para mais álcool. São relacionados pelas testemunhas a episódios de violência sexista e a outras duas mortes. Os irmãos não tinham frequentado a escola e dedicavam-se a criar vacas e a plantar batatas. De acordo com os peritos, o consumo crónico de álcool afetou-os cognitivamente.

Houve pelo menos seis expedições à região, mas apesar dos esforços titânicos das autoridades, que recorreram inclusivamente a cães, drones, helicópteros e a especialistas em montanha e minas, o corpo nunca foi encontrado, ainda que tenham sido descobertos objetos suspeitos. Entre eles, uma pulseira de borracha como a que Mathieu usava nas suas últimas fotos, que continha ADN dos arguidos e um perfil genético compatível com o da vítima, segundo o "El País".

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