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Covid-19

O que fez Itália quando chegou o momento de escolher quem vivia

O que fez Itália quando chegou o momento de escolher quem vivia

Os relatos que se ouvem nos hospitais portugueses, de "caos" e "situação dramática", lembram os alertas que chegam de Itália nos idos de março de 2020, quando os médicos italianos tiveram de começar a escolher que vidas salvar. Uma situação iminente em Portugal, agora.

"Itália está de quarentena", anunciou o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, a 11 de março de 2020, quando o número de mortos e de casos de covid-19 entre os transalpinos ultrapassou os da China. Três dias antes, o desespero vivido nos hospitais, sem capacidade para salvar todos as vidas, ecoara pelo mundo na voz embargada e sofrida dos profissionais de saúde italianos. "Preparem-se".

Eram os dias iniciais da pandemia em Portugal, em que o vírus era ainda algo indistinto, que andava por aí, mais por lá, por Itália, com mais de 2300 casos a 11 de março, o dia em que a Organização Mundial de Saúde classificou a infeção causada pelo vírus da SARS-Cov-2 como uma epidemia. Por cá, neste retângulo à beira-mar encravado, estavam oficialmente registadas 375 infeções e havia 667 pessoas em vigilância. No dia seguinte, o Governo decretou o confinamento geral.

Hoje, quinta-feira, são mais de 150 mil os casos ativos de covid-19. Mais de 190 mil as pessoas em vigilância. Dos hospitais chegam retratos do "caos", da falta de meios humanos, da escassez geral de condições para salvar vidas, para salvar todas as vidas.

Quarta-feira, em entrevista à RTP3, a ministra da Saúde, Marta Temido, contornou a pergunta. Não respondeu diretamente, mas ficou gravada na memória de quem ouviu a questão. "Os médicos já estão a escolher quem vive e quem morre?"

Que fez Itália para travar a vaga quando a vida não era para todos?

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Em Itália, a questão foi bem mais do que retórica, durante a primeira vaga. Com o galopar dos casos de covid-19 e a afluência de doentes aos hospitais, os serviços de saúde italianos, geridos pelos municípios, muitos deles entregues a privados, ficaram sem mãos humanas e meios técnicos a medir. Nem todas as vidas poderiam ser salvas, naqueles dias da primeira vaga.

A 13 de março de 2020, o Colégio Italiano de Anestesia, Analgesia, Ressuscitação e Cuidado Intensivo (SIAARTI, na sigla em italiano) divulgou um documento em que previa que a falta de recursos podia levar os médicos e enfermeiros a escolher quem seria admitido nas unidades de cuidados intensivos (UCI) de acordo com hipóteses que tinha de sobreviver.

Com mais de 15 mil casos e mil mortes acumuladas, após um mês e meio de pandemia, inicialmente apenas no norte do país, Itália era, nesta altura, a 13 de março, o segundo país mais afetado pela pandemia. Estavam já em vigor as medidas decretadas a 11 de março.

As escolas estavam fechadas, as universidades idem e os jogos do campeonato italiano de futebol. Foi a primeira e mais imediata reação de Itália ao espalhar do vírus, que começou pelo norte de Itália e depressa se espalhou pela península.

De 16 milhões para 60 milhões, a população italiana, em quarentena. O governo de Conte anunciou, depois, o encerramento de todos os negócios, à exceção das farmácias, dos supermercados e dos bancos. O executivo italiano deu ordens para se evitar deslocações e concentrações de pessoas em todo o país e proibiu todas as reuniões públicas.

"Todos devem desistir de algo para proteger a saúde dos cidadãos. Este é o momento de responsabilidade. Não podemos baixar a guarda", disse Conte quando anunciou as medidas. Eram os idos de março, a noite do dia 11, quando Itália registava perto de mil casos de covid-19 por jornada.

A curva só começou a achatar 15 a 17 dias depois, quando se registavam quase seis mil casos diários. A 28 de março as medidas, ou o medo, ou a conjugação de ambos, começou a vergar o vírus em Itália, que desceu abaixo dos mil casos diários no início de maio.

Com um período de incubação de entre 2 a 14 dias, o impacto das medidas de combate ao vírus não é imediato. "É como um petroleiro que, quando desliga os motores, não pára logo. Mesmo que fechássemos o país todo, só daqui a uma semana e meia é que veríamos o efeito", lembrava o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, em entrevista ao jornal "Público", na segunda-feira, o dia em que o número de mortos em Portugal superou a fasquia dos nove mil, havendo mais de 130 mil casos ativos de covid-19 no país e se discutia se as escolas deviam fechar ou ficar abertas.

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