Reino Unido

O senhor Brexit largou o barco

O senhor Brexit largou o barco

Conselheiro especial de Boris Johnson e ideólogo do divórcio com a Europa começava a ser incómodo.

Estava aprazado lá para o Natal, mas o desconforto terá sido tão insuportável que aconteceu ontem mesmo. O cérebro por detrás da campanha do Brexit ("Vote leave") que elevou Boris Johnson a líder e se fez conselheiro especial do entretanto eleito primeiro-ministro britânico, largou o barco. Ou foi mandado borda fora. Cummings não vai só. Lee Cain, diretor de comunicação promovido esta semana a chefe de gabinete, antecipara-se-lhe. Adianta o "The Guardian" que por ordem do próprio Johnson.

A crise no gabinete é só o reflexo da crise no seio do Partido Conservador, com cada vez mais deputados a erguer-se contra o líder, acossado pela dúbia gestão da pandemia e a arrastada resolução do futuro pós-Brexit. E a verdade é que a saída de Cummings, defensor aguerrido do Brexit duro, fez imediatamente saltar a libra, porque parece mais plausível a perspetiva de um acordo com a União Europeia para as relações comerciais no pós-31 de dezembro.

PUB

Cummings já escrevera no Twitter que a estadia no N.º 10 de Downing Street terminaria em dezembro, uma vez concluído o período de transição do Brexit, oficial desde 31 de janeiro passado. Mas escrevera-o há um ano.

O poder de Carrie

Achou por bem reanunciá-lo ontem, apontando o Natal para sair, antes que de ser posto fora, ironizava um setor do Partido Conservador que parece voltar a ganhar influência na política britânica - e ao qual não é alheia a própria companheira de Johnson, Carrie Simmonds, que foi, em tempos, assessora da bancada conservadora. Que já não suportava Cummings desde que decidira viajar através de Inglaterra violando as regras de confinamento que ele próprio ajudara a fixar.

A decisão de confirmar a saída prende-se com Cain, seu aliado e de Johnson desde a primeira hora da campanha do Brexit. Porque este foi nomeado chefe de gabinete para não melindrar a nova porta-voz de Downing Street, Allegra Stratton, que recusava reportar ao diretor de comunicação (acusando-o de querer tornar as conferências de Imprensa apenas "cosmética") e queria fazê-lo diretamente ao primeiro-ministo.

Mas o homem do Brexit acabou fotografado a sair já noite caída da sede do Governo britânico carregado de caixas de documentos. Dizem os detratores que paga pela sua mania de querer controlar tudo. E dizem fontes internas que teria feito briefings contra Johnson e que uma discussão acabou na separação. Oficialmente, Cummings e Cain vão trabalhar até meados de dezembro, em teletrabalho.

"É uma oportunidade para mudar a forma como o governo opera e enfatizar alguns valores sobre o que queremos projetar enquanto Partido Conservador no Governo", regozijou-se Bernard Jenkins, oficial de ligação entre o Parlamento e Downing Street.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG