Rostos

Os porta-vozes da pandemia nos países mais afetados pela Covid-19

Os porta-vozes da pandemia nos países mais afetados pela Covid-19

São uma espécie de Graça Freitas, diretora-geral da Saúde em Portugal, com a missão de enfrentar a ansiedade de milhões e pessoas, dia após dia, com as notícias da Covid-19.

Angelo Borrelli, de Itália, é o que mais tem sofrido. O país é o mais afetado pela Covid-19, com mais de 10 mil mortos registados, mas o homólogo espanhol também tem razões para andar preocupado, e despenteado. Em Espanha, morreram já mais de 6500 pessoas por causa do vírus que veio da China.

Tem nome italiano e, em breve, poderá ser o porta-voz com piores notícias para explicar. Os EUA são já o país com mais casos positivos confirmado à face do Planeta e, a manter-se os rácios de letalidade da Europa (número da China são um caso à parte), Anthony Fauci vai ter muitas dores de cabeça. Pelo meio, Jerôme Salomon vai mantendo o sorriso: em França, há mais de 40 mil casos confirmados e cerca de 2600 mortes, ainda menos que entre os chineses.

Anthony Fauci, o corretor automático norte-americano

Contrariar o chefe costuma ser uma ação de risco, ainda mais quando se trata de Donald Trump. O carismático presidente dos EUA toma a palavra diariamente diante dos jornalistas para informar sobre a evolução da pandemia de Covid-19. Ao lado, Anthony Fauci ouve pacientemente o discurso do chefe. Até chegar a vez de o homem que há 36 anos dirige o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infeciosas oferecer, sem rodeios, a realidade científica ao povo norte-americano, mesmo que isso implique contradizer Trump. É com ele que todos contam. Ao ponto de o pânico tomar conta dos jornalistas quando, durante dois dias, Fauci desapareceu. Esperavam o pior. O presidente sossegou-os: "Amanhã estará aqui". E assim foi.

As correções públicas do médico de 79 anos deram a volta ao mundo e o próprio presidente, homem do showbiz, já o considerou uma "estrela da televisão". O desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus foi a primeira divergência entre ambos: Trump garantiu que estaria disponível cedo, Fauci explicou logo a seguir que poderia ser comercializada no próximo ano. Depois, o médico alertou que "o pior estava por chegar", apoiando as decisões de confinamento adotadas pelos governadores de Nova Iorque e da Califórnia, enquanto o presidente as menospreza, parecendo não levar o assunto a sério.

As predições de Fauci, que trabalhou para seis governos diferentes, não falharam: os EUA converteram-se na nação com mais infetados com Covid-19 do mundo. Porque Fauci sabe do que fala - acumulou experiência na gestão de crises como o zika, o Ébola, a SARS de 2002 e gripe suina.

Filho de imigrantes italianos, Fauci nasceu numa das zonas mais empobrecidas de Brooklyn. A paixão pela medicina nasceu depois de a família abrir uma farmácia para a qual trabalhou a fazer entregas em bicicleta. Licenciou-se na Universidade de Cornell de Nova Iorque e empregou-se logo num laboratório ligado ao Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infeciosas, onde chegou a diretor em 1984. Pouco depois, Fauci dirigiu a luta contra a sida no pico da doença, nos EUA de Ronald Reagan, estudou os mecanismos do vírus e os primeiros medicamentos. E levou com os protestos da comunidade homossexual, que o rotulou de assassino em protestos em frente ao escritório. Convidou-os a entrar.

Fernando Simón, o incansável despenteado espanhol

Fernando Simón converteu-se no pão de cada dia dos espanhóis. Diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências desde 2012, tornou-se porta-voz do Governo na crise pandémica e dá a cara todas as manhãs. Com uma postura que não muda em nenhuma circunstância. Cabelo despenteado, camisa e casaco casual, discurso improvisado, rosto sem pânico apesar das notícias pouco agradáveis: o número de infetados e falecidos não pára de crescer.

Até agora, Simón só faltou um dia ao encontro com os jornalistas, depois de fazer o teste do Covid-19. Deu negativo. Especialista em epidemiologia, responde detalhadamente a cada questão, sem fazer esquecer que, no dia 31 de janeiro, dizia que Espanha estava a salvo. E os profissionais de saúde elogiam a gestão da crise, que passa dez a 12 horas diárias a monitorizar.

Simón percorreu um longo caminho até se converter na figura central da luta de Espanha contra o coronovírus. Depois de se licenciar em Medicina na Universidade de Saragoça, como o pai, foi médico de família pelas aldeias de Aragão. O espírito nómada despertou e Simón decidiu empreender uma viagem a África. Destinos: Burundi, Somália, Zâmbia, Togo e Moçambique, onde seria diretor do reconhecido Centro de Investigação em Saúde de Manhiça, que luta contra a malária, o VIH e tuberculoses. Seguiu para a Guatemala e o Equador antes de regressar à universidade na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e acabar a trabalhar em Paris. Foi aí, em 2003, que Simón recebeu uma oferta do Governo de José Maria Aznar para criar a Unidade de Alertas e Emergências da Rede Nacional de Vigilância espanhola. Desde então, passaram por ele 12 ministros da Saúde.

O epidemiologista ganhou fama entre na gestão da crise do Ébola, em 2014. Na sua primeira intervenção sobre o caso, a então ministra da saúde, Ana Mato, desfez-se em lágrimas, obrigando o Governo a mudar de estratégia de comunicação. Escolheria Simón, que ainda teve que aguentar críticas por ter repatriado de África três missionários infetados, dois dos quais acabariam por morrer. Muito pouco ao pé da hecatombe destravada que Simón, impávido, tem agora em mãos: Espanha é o segundo país mais dizimado pelo novo coronavírus no mundo.

Angelo Borrelli, o revisor contabilista da tragédia italiana

Quando Angelo Borreli se licenciou em Economia e Comércio, na Universidade de Estudos de Cassino, se doutorou em consultor de empresas e se inscreveu, em 1999, nos revisores contabilistas estaria muito longe de imaginar que um dia teria a ingrata tarefa de contabilizar e anunciar o número de vítimas causadas por um vírus.

É o que faz, a pedido do ministro da Saúde, Roberto Speranza, que no final de janeiro, o nomeou comissário para gerir a crise de emergência do COVID-19.

Todos os dias, às 18 horas (17 portuguesas), Borrelli, em conferência de imprensa, atualiza o boletim da tragédia italiana, a mais pesada do mundo, até agora, quando se fala em número de vítimas mortais.

As tragédias parecem rondar este homem, nascido a 18 de novembro de 1964 (55 anos), que seguiu de perto os sismos de Aquila, em 2009, o de Emilia-Romagna, em 2012 e, mais recentemente, o sismo ocorrido no centro do país, em 2016.

Borrelli ergue uma muralha sobre a vida pessoal, sobre a qual pouco ou quase nada se sabe. Natural de Santi Cosma e Damiano, na província Latina, região de Lazio, o chefe da Proteção Civil, revelou apenas, numa recente entrevista ao "Corriere della Sera", que não tem filhos, apenas dois sobrinhos de 10 e 12 anos.

Depois de completar os estudos, chegou ao gabinete nacional para o Serviço civil da Presidência do Conselho de Ministros, em 2002, onde passou a dirigir o serviço Administrativo, Contabilidade e Informático. Já no Departamento da Proteção Civil coordenou o gabinete de Administração e Finanças, a secção de Orçamento de Recursos Humanos e depois a Administração e Orçamento.

Entre 2010 e 2011 foi nomeado vice-presidente do departamento da área técnica administrativa e para a gestão da frota aeronáutica.

Chega à vice-presidência da Proteção civil em 2011, organismo que passou a liderar em agosto de 2017, quando Frabiccio Curcio renunciou ao cargo, alegando razões pessoais.

Jérôme Salomon, O bombeiro de serviço

Um cangalheiro com um sorriso no canto dos lábios. A descrição é dos jornalistas que, todas as 18.30 horas de França, menos uma por cá, estendem o ouvido ao rol dantesco da devastação deixada nas últimas 24 horas pela epidemia de Covid-19. Jérôme Salomon, bonacheirão, sério, homem de números que se formou médico, é o primeiro a dizer dos dias que são "infernais" e que a agenda é "dantesca". É o diretor geral da saúde - carinhosamente "o DGS" - francês. E ainda que só o seja desde 2018, é tido como o homem certo no lugar. Um homem "rodado". Porque as epidemias, na vida, estudou-as todas. E estudou esta, por paixão e prevenção, mal ela estoirou na China. "Vamos levar com a onda!"

Não se pode dizer que não avisou. Era início de fevereiro. Já Salomon sentira na pele a dura luta entre a convicção, a consciência de que a França não tinha capacidade para uma hecatombe de doentes em cuidados intensivos, e a descrença de colegas e políticos, mormente dos que lidam com números, mas de euros. "Vivemos a estranha guerra. Ou o deserto dos tártaros". Disse ele, sobre a espera da onda que ninguém cria vir. Menos ainda a opinião pública. Veio.

E mudou o discurso deste bisneto e sobrinho de médicos investigadores (a vacina contra a difteria e a reanimação bilateral são heranças familiares), filho de um funcionário administrativo na Assembleia Nacional e de uma professora, pianista amador, diz-se que exímio, pai divorciado de três filhos, 50 anos, infeciologista, viciado em saúde pública e em epidemiologia com passagem pelo Instituto Pasteur, hospitais de renome e a vaga esperança de chegar a ministro.

O presidente, Emmanuel Macron, convocou-o ainda candidato. E foi aí que ouviu que a França está despreparada. Agora, o DGS defende o sistema possível, com unhas e dentes, todos os dias, justificando a falta de material com a sua desnecessidade, bombeiro de serviço e escudo do poder, mormente do presidente com quem tem linha direta. "O Planeta transformou-se numa aldeia onde podemos ser afetados, em poucos dias, por um vírus, apesar de ele se manifestar do outro lado do mundo". Diz Salomon. Há muito.

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