Itália

Padre de 72 anos cede ventilador a infetado jovem e morre de Covid-19

Padre de 72 anos cede ventilador a infetado jovem e morre de Covid-19

Figura muito amada da região de Bergamo, o sacerdote já é conhecido como o novo "Mártir da Caridade", levando a comparações com São Maximiliano Kolbe.

Um padre católico italiano morreu de Covid-19, a doença respiratória aguda provocada pelo coronavírus, após recusar um ventilador que os paroquianos tinham adquirido de propósito para ele. Dom Giuseppe Berardelli, 72 anos, morreu na noite de 15 de março num hospital de Lovere, Itália. Havia dito que a máquina devia servir para salvar uma pessoa mais nova e cedeu-a. A história foi revelada pela revista "Newsweek".

Os ventiladores mecânicos são máquinas essenciais de sobrevivência que auxiliam a respiração em pacientes infetados, fornecendo assistência aos problemas pulmonares, dos quais a pneumonia é um dos mais graves na associação ao Covid-19.

Um novo santo mediático

O padre Berardelli, dizem os média italianos, era uma figura muito amada em Lovere, comunidade italiana da região da Lombardia, província de Bérgamo com cerca de 5.430 habitantes. Era conhecido pela sua proximidade para com os mais pobres, por ajudar aqueles que tinham problemas financeiros e por andar numa característica motocicleta vermelha. O seu aparente sacrifício está a transformá-lo num mártir mediático.

"Ele é um 'Mártir da Caridade', um santo como São Maximiliano Kolbe, que em Auschwitz [campo de concentração nazi durante a II Grande Guerra] se ofereceu para tomar o lugar de um homem condenado que tinha família, morrendo em vez dele", escreveu num tweet o padre jesuíta James Martin.

"Don Giuseppe Berardelli, patrono daqueles que sofrem de coronavírus e de todos que cuidam deles, orai por nós!", escreveu o jesuíta na rede social de micro-blogging. O Vaticano ainda não comentou oficialmente o seu martírio.

Itália em agonia

Berardelli é um dos mais de 6.077 Italianos que já morreram desde o início da crise viral. Itália é mesmo o país do mundo com o pior rácio de infetados na relação com os que não se salvam: tem nesta altura 63.927 infetados oficiais, mas o número de mortos já duplicou os da China, que perdeu até agora 3.277 pessoas entre 81.171 chineses infetados.

Pelo menos seis padres, incluindo Berardelli, morreram em Itália durante a última semana na província de Bergamo, no norte do país, com pelo menos mais 14 prelados hospitalizados. Bergamo é uma das regiões italianas mais duramente atingidas pela pandemia, esgotando hospitais e fazendo com que equipamentos médicos vitais, como são neste caso os ventiladores, sejam um bem tragicamente escasso.

"O nosso sistema de saúde está totalmente destruído. Nunca ninguém viveu uma coisa assim. É uma catástrofe", confirmou Mirco Nacoti, médico do Hospital Papa Giovanni XXIII, de Bergamo, ao jornal americano "The Washington Post".

Embora não esteja claro quem é que acabou por ser salvo pelo ventilador que os paroquianos de Lovere tinham comprado para o seu amado padre, o seu ato de abnegação poderá ter salvado a vida de um doente mais jovem.

Faltam ventiladores em todo o Mundo

Todos aqueles que sofrem de forma grave de Covid-19 são tipicamente atingidos por pneumonia, o que torna difícil, se não mesmo impossível, respirar sem a assistência mecânica fornecida pelo equipamento respiratório hospitalar.

A escassez de ventiladores tornou-se evidente e preocupante em todo o Mundo à medida que o vírus continua a disseminar-se.

Nos Estados Unidos, país que é já o terceiro no mundo com o maior número de infetados (46.168; os mortos ascendem a 582), o número de novos casos cresce dramaticamente.

Trump não gosta dos especialistas

Especialistas temem que o sistema de saúde americano, que é muito diferente do Europeu, que tem modelos de saúde públicos e gratuitos, e está fortemente apoiado em seguros privados, fique sobrecarregado em breve, não havendo ventiladores disponíveis para todos.

"Se não tivermos ventiladores suficientes, as pessoas que precisarem deles não conseguirão obtê-los e vão morrer", disse o médico imunologista Anthony Fauci à CNN. "Os meus colegas em Itália têm que tomar decisões terríveis [escolher quem vão salvar]. Espero que aqui nunca cheguemos a esse ponto...", disse Fauci, que é o chefe do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA e é considerado um dos maiores especialistas em virulogia.

Fauci entrou recentemente em rota de colisão com Donald Trump devido ao discurso irrealista e pouco factual do 45.º presidente dos Estados Unidos. "Eu só quero que os factos sejam conhecidos", sublinhou Anthony Fauci, que desde o fim de semana foi afastado da "task force" pública mais próxima de Trump.

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