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Militares guineenses regressam às casernas após acordo político

Militares guineenses regressam às casernas após acordo político

Os militares guineenses autores do golpe de Estado do passado dia 12 reafirmaram esta quarta-feira à noite o retorno às casernas, depois de um acordo firmado com os políticos para a transferência do poder.

O anúncio do retorno às casernas foi feito pelo tenente-coronel Daba Na Walna, porta-voz do Comando Militar.

"Assinámos este acordo para dizer à sociedade civil que nós voltámos para a caserna. O nosso lugar é lá. Somos militares por opção. Os políticos quiseram ser políticos. Há que separar as águas para que o país possa progredir", disse Na Walna.

Para este militar, a assinatura do acordo com os políticos "é um gesto simbólico" que representa "a reconfirmação de forma clara de que os militares não querem assumir o poder" na Guiné-Bissau.

Em nome dos partidos políticos, Artur Sanha, antigo primeiro-ministro de transição e ex-secretário-geral do Partido da Renovação Social (PRS, de Kumba Ialá), afirmou que com o acordo assinado esta quarta-feira "os militares vão-se submeter aos políticos".

"Os políticos estão de mãos estendidas para receber o poder que os militares detinham desde o dia 12. Agora é apenas uma questão meramente administrativa e jurídica para a regulamentação do período de transição", afirmou Sanhá.

"Dentro de dois ou três dias começarão a ouvir os nomes de figuras que vão ocupar a Presidência da Republica, o Governo e o Conselho Nacional de Transição", sublinhou Artur Sanhá.

"Existe já um consenso entre os partidos para uma pré-seleção que já está nas mãos dos militares", frisou Sanhá, que, no entanto, negou revelar os nomes das pessoas pré-selecionadas para esses cargos.

"Isso é segredo", respondeu Artur Sanhá, quando questionado pelos jornalistas, mas fez questão de notar que a Constituição da República ficará afetada com o acordo hoje firmado com os militares.

"Finalmente conseguimos ir para o primado da Constituição em 80 ou 85%", observou Artur Sanhá, quando confrontado com o modelo da transição que é pretendido.

O porta-voz do Comando Militar considerou que os dois anos previstos para durar a transição é o período suficiente para a "arrumar a casa", no entender dos políticos e dos militares.

"Esse período é aquilo que se julgou ser razoável para uma transição. Porque a história deste país provou-nos que o problema não são as eleições. Quantas eleições já fizemos aqui e quais têm tido resultados. Falta ao país tempo para arrumar a casa. É o que se pretende fazer agora", explicou Dabhana Na Walna.

Sobre as sanções internacionais que pendem sobre a Guiné-Bissau em caso de uma transição do poder fora do âmbito constitucional, como foi hoje acordado, Artur Sanhá não se mostrou preocupado.

"A CEDEAO, a União Africana, as Nações Unidas e outras organizações internacionais devem louvar a Guiné-Bissau pela sua experiência em transições do poder. Esta é a terceira transição que fazemos", lembrou Sanhá

Perante a insistência dos jornalistas sobre as questões que se pretendem com eventuais sanções para o país, Sanhá desafiou os profissionais da comunicação social para um debate.

"Peço aos jornalistas para organizarem uma plateia alargada para um debate com os políticos sobre as viabilidades desta terceira transição na Guiné-Bissau", disse Artur Sanhá.