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Seca e fome vai levar anos a resolver no sul de Angola

Seca e fome vai levar anos a resolver no sul de Angola

Estrada fora, catana ao peito e apoiado num pau, Manuel António segue atrás das duas dezenas de cabeças de gado que lhe restam, após a seca em Gambos. Num português arcaico resume os últimos três anos: "Aqui morrer à fome".

Só neste município da província da Huíla, no sul de Angola, a administração municipal estima que morreram mais de 54.000 cabeças de gado em 2013, devido à falta de chuva, que deixou a população sem sustento também no campo.

Sem alimento e na tentativa de fazer algum dinheiro, os criadores chegaram a vender bois a 1.000 kwanzas (cinco euros), cenário bem presente na memória de Manuel António. Antes da seca podia facilmente vender um destes animais a mais de 90.000 kwanzas (520 euros).

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"Está a ver? Não ter barriga. Muita fome, não comer nada", conta à Lusa este pastor de 57 anos, apontando para as marcas da fome no corpo e confessando nunca ter passado por uma seca tão prolongada.

Nos dias bons, como muitas outras famílias de Gambos, António faz uma refeição, geralmente à noite. O cenário é reconhecido abertamente por todos.

"Sim, tivemos fome. Houve uma altura em que dependíamos de doações, através do Governo, em que passamos a fornecer alimentos a 5.070 famílias", explica, em entrevista à Lusa, Julieta Vitória, administradora municipal adjunta de Gambos.

Cerca de 140 quilómetros a sul do Lubango, aquele município, com 75.000 habitantes, é terra de criadores de gado e todas as mais de 15.000 famílias estão ligadas também à agricultura de sequeiro, sobretudo na cultura de massango, massambala e milho.

Na terra mais afetada na Huíla pela seca prolongada, começou a chover, ainda que irregularmente, em dezembro, mas a recuperação total, entre agricultura e criação de gado, vai levar tempo e se a chuva estiver aí para ficar. Algo que, por estes dias, não é certo.

"Espero que venha a chover mais cinco anos, para ver se conseguimos inverter este quadro. Sem isso, não poderemos ver a comunidade tranquila e com segurança alimentar", admite Julieta Vitória.

É que para agravar os problemas do período da seca, agora é a falta de sementes para lançar à terra a preocupar. Tudo porque foram utilizadas na alimentação nos últimos anos e tendo em conta que o Governo não fez qualquer distribuição entretanto, como acontecia regularmente. Um cenário que condiciona a recuperação da seca em Gambos.

"Tivemos indisponibilidade de sementes para esta campanha", reconhece Julieta Vitória, sublinhando que a administração municipal apenas conseguiu adquirir e distribuir uma pequena quantidade para a presente campanha agrícola.

O resultado traduz-se em números: Dos 29.375 hectares planificados para esta campanha, iniciada em setembro, apenas 22.300 hectares foram lavrados e aproximadamente só 80 por cento destes foram semeados pelos camponeses.

"É um potencial que não está a ser aproveitado pela falta de sementes", reconhece a administradora adjunta.

Em colaboração com a Organização de Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO), a administração municipal tem em curso projetos para reestruturar e diversificar a produção agrícola de Gambos.

Desde logo introduzindo uma terceira época de cultura no ano, para hortícolas e tubérculos, depois da cultura dos cereais e a seguir de leguminosas, mas também com campos agrícolas de demostração, para melhor os processos de produção.

Um outro projeto, que arrancou em janeiro em colaboração com a FAO, implica uma área de 413 hectares, para produção de hortícolas. Cabe àquela organização a instalação de equipamento que permita tirar proveito de um ponto de água já existente na zona, com capacidade para fornecer 23.000 litros de água por hora, e respetivo sistema de irrigação.

"Acreditamos que vamos recuperar desta seca, mas vai levar tempo", remata Julieta Vitória.

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