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Papa Pio XII ajudou milhares de judeus no Holocausto

Papa Pio XII ajudou milhares de judeus no Holocausto

Livro "Os judeus de Pio XII", escrito pelo historiador Johan Ickx a partir dos arquivos do pontificado de Eugenio Pacelli, prova intervenção do Vaticano durante a Segunda Guerra Mundial.

O apoio do papa Pio XII a milhares de judeus que procuraram escapar ao horror nazi na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial, é demonstrado no livro que o historiador e arquivista do Vaticano Joahn Ickx foi desafiado a escrever.

Criticado pela passividade durante o Holocausto e rotulado como o "Papa do Silêncio", Eugenio Pacelli criou uma labiríntica rede diplomática pelo Velho Continente que ao longo dos anos de guerra acudiu a judeus de vários países, revela o livro "Os judeus de Pio XII".

"É algo de muito novo, a descoberta de que havia um pequeno gabinete, o "Bureau', que em 1938/39, dia e noite, trabalhou para responder aos pedidos de judeus de toda a Europa. Não apenas de judeus de Roma ou de itália, que escreviam ao papa", conta Johan Ickx, numa conversa por "zoom" com o JN, a partir de sua casa, em Roma.

A secretaria de Estado do Vaticano foi o único Ministério dos Negócios Estrangeiros do mundo que teve um gabinete específico e "uma verdadeira rede internacional destinada a socorrer aqueles que eram perseguidos durante a Segunda Guerra Mundial, escreve Ickx. Nos arquivos do Vaticano relativos ao pontificado de Pio XII, cuja abertura foi antecipada pelo papa Francisco no ano passado, Johan Ickx encontrou uma série de documentos dedicada aos judeus.

"Os arquivos têm séries de todos os países como Portugal, Espanha, Bélgica, Itália, Rússia. De repente, nesta imensidão de arquivos, há a Série Ebrei, de 1939-45", conta, entusiasmado, o historiador e arquivista. "Uma série dedicada aos judeus. Algo que aconteceu de durante a guerra", precisa.

O amor supera o medo
Entre os documentos, havia milhares de cartas recebidas no Vaticano durante aqueles anos. "Todas estas pessoas tinham as mesmas perguntas ou pedidos para serem ajudadas com dinheiro ou com documentos para arranjar uma fuga da Europa", explica o autor. "É muito surpreendente, porque os críticos disseram sempre que Pio XII nunca quis saber dos judeus, que lhes virou a cara e que não tinha simpatia por eles", acrescenta.

Um dos dossiers, que deu origem a um dos capítulos do livro, trata do caso de Maria Adler, "uma israelita e alemã de nascimento", casada com Simon, um judeu de 60 anos, que viviam em Milão. O marido foi detido e enviado para o campo de concentração de Sjorzacosta, Macerata, na costa adriática. Na desesperada carta que envia, Maria Adler suplica ajuda para se juntar ao marido no campo de concentração. "O amor superava o medo", escreve Ickx.

"Decidi dar exemplos destes pedidos e da forma como lidaram com eles. Criei pequenas histórias que são de facto exemplos do que está na série", explica o responsável pelo Arquivo Histórico da Secretaria de Estado da Santa Fé.

"Os Judeus de Pio XII" revela, ainda, a amizade e a rica troca epistolar entre o presidente norte-americano Franklin Roosevelt, bem como, no último capítulo, a intervenção do então cardeal Eugenio Pacelli, durante a Primeira Guerra Mundial, na redação de uma carta à Comissão Judaica Americana, na qual se assume que "os judeus são irmãos". "É uma descoberta enorme, que muda tudo. Podia ter escrito apenas o último capítulo", conclui Johan Ickx.

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