Reino Unido

"Partygate": escândalo das festas em pandemia pode fazer cair o Governo

"Partygate": escândalo das festas em pandemia pode fazer cair o Governo

Foram pelo menos 11 as festas que envolvem o gabinete do primeiro-ministro, entre maio de 2020 e abril de 2021, e que violaram regras de confinamento em pandemia. Boris Johnson terá participado, no mínimo, em seis. Sob brasas, Johnson aguarda pelas conclusões de um relatório e ainda da investigação policial. Uma moção de censura do seu próprio partido é agora praticamente certa.

Boris Johnson e o Parlamento britânico preparam-se para a iminente publicação do Relatório Sue Gray - Sue é a funcionária pública de 64 anos que está a compilar os factos potencialmente demolidores daquilo que é agora coloquialmente conhecido como "partygate" - sobre as festas celebradas em Downing Street, local do gabinete oficial do primeiro-ministro.

Johnson enfrenta repetidas acusações de que ele, a sua equipa de gabinete e outros funcionários públicos violaram a lei num momento em que milhões de britânicos estavam obrigados a observar as restrições da pandemia da covid-19.

O primeiro-ministro de 57 anos, eleito em 2019 pelo Partido Conservador para executar o Brexit que Theresa May, a sua antecessora, não conseguira, saiu em defesa de alguns desses ajuntamentos festivos, que disse serem "simples reuniões de trabalho".

A investigação da imprensa britânica foi fundamental para destapar e expor as festas e as mentiras subsequentes sobre as alegadas "reuniões de trabalho" em que parecia haver sempre álcool e convívio sem regras.

Eis as principais datas em causa, em que houve, no espaço inferior a um ano, pelo menos 11 festas ilegais com o conhecimento de Downing Street. A "timeline" foi publicada pela RTÉ, emissora nacional de televisão e rádio da Irlanda.

15 de maio de 2020

PUB

Johnson é fotografado ao lado de uma mesa de vinhos e queijos, na companhia da sua agora esposa Carrie (casaram em 2021) e cerca de 20 funcionários seus no jardim de Downing Street. A prova é irrefutável: uma fotografia foi parar à imprensa e o diário "The Guardian" publicou-a.

20 de maio de 2020

Martin Reynolds, assessor sénior de Johnson, convida a equipa "a aproveitar ao máximo o clima agradável e tomar algumas bebidas socialmente distanciadas, esta noite no jardim do n.º 10".

A "ITV News", que obteve uma cópia do convite por email, reportou que 40 funcionários acabaram juntos nos jardins naquela noite, entre bebidas alcoólicas e comida de piquenique.

Johnson e Carrie estiveram presentes, de acordo com vários relatórios. Alguns funcionários expressaram a sua inquietação pela potencial violação das regras do confinamento.

Mais tarde, o primeiro-ministro negou "categoricamente" ter sabido do evento com antecedência ou ter recebido avisos de que violava as regras, regras que ele próprio estabeleceu para todos os britânicos.

19 de junho de 2020

Diz-se que até 30 funcionários de Downing Street participaram na festa de aniversário dos 56 anos de Boris Johnson. Nesta altura, as reuniões sociais eram permitidas apenas no exterior e para grupos até seis pessoas.

Johnson terá sido presenteado com um bolo tricolor da "union jack" (bandeira nacional do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte) e o seu staff cantou-lhe os parabéns numa festa que durou meia hora, pelo menos. Downing Street insistiu que o primeiro-ministro esteve presente na festa apenas durante dez minutos.

Terá havido, nesse dia de aniversário, outra festa noturna que reuniu no apartamento de Johnson vários amigos do casal. Foi depois negado que tal festa tenha existido.

13 de novembro de 2020

Dominic Cummings, polémico conselheiro de Johnson, é demitido por ter violado, mais do que uma vez, as regras de confinamento. Na chuva de críticas da sua saída, Cummings revela ter havido uma "festa estridente" naquela noite no apartamento de Boris e Carrie Johnson em Downing Street.

Nesta altura, Inglaterra atravessava o seu segundo confinamento e os ajuntamentos eram expressamente proibidos.

27 de novembro de 2020

Neste dia, outro assessor deixa o governo e Boris Johnson discursa. Há bebidas. O jornal "Daily Mirror" reporta que cerca de 50 pessoas estiveram juntas "e muito comprimidas" numa só sala.

14 de dezembro de 2020

Uma fotografia revelada pelo jornal "The Times" mostra funcionários conservadores em clima festivo na sede do partido. Havia um bufete de comidas e bebidas à discrição. O partido justifica-se depois: a reunião não fora, supostamente, autorizada e alguns dos presentes foram recriminados com processos disciplinares.

Nesta altura, Londres tinha apertado as restrições sociais que substituíram o confinamento geral de novembro, que proibia a socialização interna mesmo entre pessoas da mesma família.

15 de dezembro de 2020

Boris Johnson é fotografado sentado entre dois funcionários num momento de relaxe durante um "questionário de Natal" por Zoom no n.º 10 de Downing Street. Mais tarde, o primeiro-ministro insiste que se tratou apenas de uma reunião de trabalho.

17 de dezembro de 2020

Um evento social terá ocorrido com a presença de funcionários do gabinete oficial do primeiro-ministro.

O funcionário público sénior Simon Case, que inicialmente foi encarregado de investigar as reivindicações de outros partidos, renuncia ao cargo. Na altura foi alegado que a sua equipa havia violado as regras sobre distanciamento social dentro de portas.

Mais tarde, foi relatado que houve outro evento social naquele departamento, no mesmo dia, para marcar a saída de Kate Josephs, ex-chefe da "task-force" da covid. Mais tarde, Kate pediu desculpas pelo seu comportamento.

18 de dezembro de 2020

Outra festa teve lugar em Downing Street, de acordo com o "Daily Mirror". A reação do governo adivinha-se: nega que tenha existido. Mas um vídeo obtido pela "ITV News" mostra a então secretária de imprensa de Johnson, Allegra Stratton, a mandar piadas sobre esse evento durante uma conferência de imprensa. Mais tarde, Allegra renuncia ao cargo e faz uma declaração pública bastante chorosa.

16 de abril de 2021

Mais duas festas de despedida "bem regadas" ocorreram na noite anterior ao funeral do príncipe Philip, marido da rainha Isabel II, enquanto o país estava num período de luto oficial. A revelação é feita pelo jornal "The Daily Telegraph".

Boris Johnson não terá estado presente nesses saraus "embriagados", mas sabe-se que várias garrafas de álcool foram contrabandeados para Downing Street, transportadas numa mala.

O então diretor de comunicações do gabinete do primeiro-ministro, James Slack, que já abandonou o gabinete, é obrigado a pedir desculpas pela "raiva e mágoa" causadas.

Após este episódio, Boris Johnson solicitou uma audiência à rainha para pedir desculpas pessoais e políticas pelos factos.

O relatório de Sue Gray deve ser conhecida esta semana

E agora: o que se segue para Boris Johnson? Nada de bom.

"Suspeito que não teremos que esperar muito mais pelo relatório de Sue Gray, com o qual poderemos ter uma visão mais completa do que aconteceu exatamente", afirmou à BBC a ministra das Relações Exteriores, Liz Truss.

O relatório da funcionária do serviço civil britânico Sue Gray foi pedido pelo próprio Johnson no início de dezembro de 2021. Foi uma tentativa de tapar um escândalo que não para de crescer.

Na altura, o líder conservador disse-se "furioso" e ordenou uma investigação interna, com a promessa de "consequências sérias" em caso de infração.

Mas desde então, numa série de fugas de informação para a imprensa, que escorrem a conta-gotas e deixam o público permanentemente interessado no tema, foram descobertas muitas mais infrações, 11 no total, com ajuntamentos ilegais de membros do governo.

As tão aguardadas conclusões do relatório de Sue Gray devem ser conhecidas esta semana, ou, no mais tardar, na semana que vem.

Polícia de Londres também está a investigar

Mas o "partygate", como uma bola de neve que ameaça arrastar o primeiro-ministro à sua passagem, continua a ter consequências: esta terça-feira, a polícia de Londres anunciou, com muito atraso, que está a investigar possíveis delitos.

Não se sabe agora com exatidão quais as partes dos factos que devem ser apuradas por Sue Gray ou quais são as violações que cabe à polícia reportar.

E agora pode vir aí uma moção de censura interna

"Não precisamos do relatório de Sue Gray para saber que Boris Johnson deve deixar o cargo de primeiro-ministro", declarou Angela Rayner, número dois do Partido Trabalhista, principal força de oposição aos conservadores, num artigo de opinião publicado esta quarta-feira.

Rayner denunciou "uma cultura muito clara de total desprezo pelas normas e o decoro em Downing Street" e destacou que essa cultura "vem do indivíduo que está no comando".

Mas o caso "partygate" já ganhou uma dimensão tal, que a contestação já não vem só dos partidos da oposição; vem do interior do próprio Partido Conservador de Johnson.

Agora são justamente os jovens deputados conservadores, e principalmente aqueles que foram eleitos nos círculos que tradicionalmente votavam na esquerda, que se rebelam com mais veemência e força contra o líder, num desejo expresso de lhe arrebatar o controlo do partido e, logo, do governo.

Esse desejo de correr com Johnson deve manifestar-se sob a forma de uma moção de censura interna.

Para isso, os deputados conservadores precisam de juntar 15% dos 360 deputados da maioria governamental, enviando cartas ao denominado Comitê 1922, que é responsável pela gestão da bancada parlamentar.

O número permanecerá em sigilo até que a marca necessária dos 15% seja alcançada. Aí, a moção entra em marcha e vai a votos no Parlamento.

Tudo isto sucede num contexto político que está também em mutação. Se em 2019 Boris Johnson alcançou a mais confortável maioria para os conservadores desde a década de 80, hoje, pela primeira vez em muitos anos, dizem as sondagens, o Partido Trabalhista já supera o Partido Conservador em mais de 10% nas intenções de voto.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG