Cumbre Vieja

"Peço a Deus que o vulcão pare de vez". Confinados em La Palma ao som das explosões

"Peço a Deus que o vulcão pare de vez". Confinados em La Palma ao som das explosões

A maioria partiu. Quem fica tenta resistir ao "drama". Desde a passada quarta-feira, quatro bairros de Tazacorte, município onde a lava se encontrou com o mar, estão em confinamento. À preocupação com a qualidade do ar junta-se a incerteza face ao futuro económico da região.

O silêncio e o vazio das ruas são muito semelhantes aos dos piores dias do confinamento. Mas com duas diferenças monumentais: as assustadoras explosões do vulcão Cumbre Vieja e a incessante chuva de cinzas que pinta as casas e se entranha nos cabelos e nas roupas. Os quatro bairros mais próximos da boca do vulcão (San Borondón, Marina Alta, Marina Baja e La Condesa) - que entrou em erupção a 19 de setembro, em La Palma, nas Canárias - estão quase desertos e é negra a nuvem de preocupação que paira sobre o futuro económico da região.

No bar local, habitualmente o ponto de encontro dos moradores, um papel escrito à mão: "De momento não posso abrir. Tentarei mais tarde". Um "mais tarde" que a proprietária, Cathaysa, de 24 anos, não sabe definir no tempo.

Cerca de 300 residentes nesses bairros do município de Tazacorte deixaram as suas casas e não tencionam voltar, por enquanto. É o caso de Enrique Pons, de San Borondón, que pegou no essencial e partiu, com a família, para Santa Cruz de la Palma, do outro lado da ilha. "Decidi sair porque a nuvem de cinzas está a ficar cada vez maior", contou ao El País, reconhecendo ainda preocupação com os gases libertados na desaparecida praia de Guirres, onde a lava se encontrou com a água do mar na noite de terça-feira.

Mas também há quem tenha decidido ficar. María Pilar Rodríguez, de 79 anos, mora com o marido e uma das três filhas do casal e não esconde o desalento. "O meu marido sofre dos pulmões e estamos aqui fechados. Como na pandemia. E ainda por cima tivemos mortes recentes na família. Isto é um drama", lamentou.

A mesma ansiedade demonstrada por Antonia María Martín, que teimosamente varre as cinzas à porta de casa, no bairro de Marina Baja. "Estou realmente mal", reconhece, em declarações ao jornal espanhol, apesar do sorriso. "O psicólogo vem cá todas as semanas", referiu, contando que, recentemente, teve de remover um rim e nunca mais foi a mesma. Se já pouco saía de casa, "agora muito menos". "Só peço a Deus que este vulcão pare de vez".

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Mas, para já, as notícias ainda não são as melhores. Os responsáveis do Plano de Emergência Vulcânica das Canárias (Pevolca) mostraram, esta semana, alguma preocupação com a qualidade do ar: os limites máximos não foram ultrapassados mas é preciso respeitar as medidas de segurança como usar máscara e, sempre que possível, ficar em casa.

Os negócios da região também tremem. O serralheiro José Juan Santana, proprietário da Cerrajerías Santana, na rua principal de San Borondón, já nota a diferença. "Estamos há quatro dias em confinamento e notámos uma forte retração dos negócios", lamentou. A erupção está a afetar ainda o cultivo da banana, uma das principais fontes de receita da ilha. "Se as bananas ficarem destruídas, o negócio vai logo atrás", acrescentou Ubay González, um colega de Santana.

A plantação de Francisco Gómez Acosta, de anos 80, está a salvo, para já. "Fui buscar água porque não posso permitir que a colheita se perca", contou, acrescentando que o Cumbre Vieja já lhe destruiu "duas casas e uma estufa".

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