França

Pela liberdade de expressão. "Nem medo nem ódio, essa é a nossa vitória"

Pela liberdade de expressão. "Nem medo nem ódio, essa é a nossa vitória"

Dezenas de milhares de franceses em defesa da liberdade de expressão depois da morte de um professor por causa de uma aula de Cidadania.

A palavra "liberdade" é que lança o tríptico da divisa de França. Liberdade, igualdade, fraternidade, como está escrito na fachada da escola de Bois-d'Aulne, em Conflans-Sainte-Honorine, nos arredores de Paris. E a liberdade aplica-se, antes de mais, ao pensamento e à expressão. Por palavras, ditas, escritas ou desenhadas. E essa liberdade que é pilar de uma sociedade laica "deve ser ensinada".

Foi isto que, no domingo, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas de França sublinhar, entoando o hino nacional. Em nome de Samuel Paty, o professor de história-geografia que quis ensinar a uma turma essa tão poderosa liberdade e acabou barbaramente assassinado porque uma das alunas se queixou ao pai, que montou uma campanha nas redes sociais, que fizeram o trabalho que lhes é próprio e incendiaram consciências. Uma delas, um refugiado russo de origem chechena de 18 anos, fez da consciência ato. Morreu depois de matar, em nome de Alá, contra os "cães do inferno", os "infiéis", esses cujo trabalho é ensinar.

Quem vai ousar ensinar?

Samuel pegara numa caricatura de Maomé do jornal satírico "Charlie Hebdo" para explicar a liberdade de expressão. Para explicar que a caricatura é um produto dessa liberdade e que a morte não pode ser o preço a pagar por um direito constitucional. Pagou com a vida dele.

E lançou na classe docente uma dúvida amarga: "Quem estará determinado a ensinar a liberdade de expressão sem temer ter o mesmo destino que Samuel Paty?", perguntava, numa opinião publicada no jornal "Le Monde", o escritor e ex-professor Michaël Prazan. Que recorda o que um dia um professor lhe ensinara: "O nosso primeiro dever enquanto cidadão "é ser ateu, o segundo é tornar-se ateu"" - um lema que hoje trocaria a palavra "ateu" por "laico". E que conclui que "a escola deixou de ser um santuário". Porque a Internet e as suas redes impuseram-se-lhe.

"Parece que temos tudo às costas. Os canais de informação, os políticos e agora matam-nos porque fazemos o nosso trabalho. Temos colegas que se suicidam e matam-nos à porta das escolas", explica um professor que se manifestava em Paris. E outra: "Percebi que podemos morrer a ensinar".

Em Paris, a multidão clamava que "a escola chora, mas não tem medo", que em francês rima ("L"école pleure, mais n"a pas peur") e o primeiro-ministro, jean Castex, avisava: "Não nos metem medo. Não temos medo. Não nos dividirão. Nós somos a França!". Desfilava ao lado do ministro da Educação, da ministra da Cidadania, da autarca de Paris. "A unidade é a condição do sucesso".

"Seis anos depois do assassinato da equipa do "Charlie Hebdo", é de novo a liberdade de expressão que está no coração de um ato de barbárie. E é de novo um intelectual, obrigado, pela profissão e pelas convicções, a defender a diversidade de opinião e de religião, que paga com a sua vida", resumiam anteontem os editorialistas do "Le Monde", recordando que os terroristas do ataque de janeiro de 2015 estão atualmente a ser julgados.

"Nem medo nem ódio, essa é a nossa vitória". O ensinamento, lido ontem em Paris, é de Albert Camus. Tem que passar.

Professor apreciado

Dizem os alunos que os manuais eram um pormenor das aulas de história e geografia de Samuel Paty. Que a matéria era explicada com a realidade, a guerra contada com a desigualdade, conversas em vez de lições frias. Na sexta-feira, despediu-se desejando boas férias. Cinco minutos depois, estava morto. Samuel tinha 47 anos, um filho, alegria e orgulho nos alunos, dizem, unanimemente.

Vários detidos

O pai que se queixou de Paty e fez uma campanha nas redes é um dos 11 detidos nas investigações ao crime. Um militante islamista e familiares do atacante, abatido, também estão presos para averiguações.

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