Retirada

Pentágono admite ter sobrestimado exército afegão

Pentágono admite ter sobrestimado exército afegão

O Pentágono admitiu, esta terça-feira, ter subestimado a desmoralização do exército afegão, cujo colapso nos últimos dias de retirada das forças militares dos EUA em Cabul permitiu aos talibãs chegar ao poder sem dificuldade.

"Construímos um Estado, mas não conseguimos criar uma nação", admitiu o secretário de Defesa norte-americano, Lloyd Austin, que explicava aos senadores o fim caótico da guerra no Afeganistão.

"O facto de o exército afegão - que treinámos com os nossos aliados - ter entrado em colapso (muitas vezes sem disparar uma bala) apanhou-nos de surpresa", explicou Lloyd Austin.

"Não conseguimos perceber o nível de corrupção e incompetência dos seus altos oficiais; não medimos os danos causados pelas mudanças frequentes e inexplicáveis decididas pelo presidente Ashraf Ghani no comando; não fomos capazes de prever o efeito 'bola de neve' dos acordos feitos pelos talibãs com quatro comandantes locais após o acordo de Doha; nem percebemos como o acordo de Doha desmoralizou o exército afegão", enumerou o secretário de Defesa, durante uma sessão no Senado dos EUA.

Também o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas norte-americanas, general Mark Milley, admitiu perante os senadores que a decisão de retirar os conselheiros militares destacados para unidades afegãs contribuiu para sobrestimar a capacidade do exército afegão.

"Não fomos capazes de avaliar totalmente o nível moral e a vontade do comando. Podemos contar aviões, camiões, veículos, carros (...), mas não conseguimos medir o coração humano com uma máquina", explicou o general.

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O Governo do ex-presidente Donald Trump assinou em 29 de fevereiro de 2020, em Doha, no Qatar, um acordo histórico com os talibãs, que previa a retirada de todos os soldados estrangeiros antes de 1 de maio de 2021, em troca de garantias de segurança e da abertura de negociações diretas entre insurgentes e as autoridades de Cabul.

Após vários meses de reflexão, o atual presidente, Joe Biden, que tomou posse em janeiro passado, decidiu respeitar esse acordo, ao mesmo tempo que prorrogou o prazo de retirada para 31 de agosto.

Esta terça-feira, na sessão do Senado, foram notadas divergências entre o secretário de Defesa e o chefe do Estado-Maior, quando um dos senadores os interrogou sobre se a reputação dos Estados Unidos tinha ficado "danificada" por causa do processo de retirada dos soldados norte-americanos no Afeganistão.

"Acho que a nossa credibilidade junto dos nossos aliados e parceiros no mundo, assim como junto os nossos adversários, está a ser reexaminada com muito cuidado. 'Danificada' é uma palavra que pode ser usada, sim", disse Mark Milley.

"Acho que a nossa credibilidade continua forte", respondeu Austin, discordando do chefe do Estado-Maior.

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