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Poluição em Cabul mata oito vezes mais pessoas do que guerra

Poluição em Cabul mata oito vezes mais pessoas do que guerra

Mais de 26 mil afegãos morreram em 2017 devido à poluição, avançou hoje um site académico que analisa o estado do ar, número que representa quase oito vezes mais mortes do que as causadas pela guerra naquele ano.

Apesar de não existirem estatísticas oficiais, o site 'State of Global Air' -- criado pelos institutos Health Effects Institute e Health Metrics and Evaluation e gerido por especialistas da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, -- contabiliza mais de 26.000 mortes causadas por poluição naquele país durante o ano 2017.

Segundo as Nações Unidas, naquele ano, morreram 3.483 civis na guerra do Afeganistão.

Cabul, com cerca de seis milhões de habitantes, tornou-se uma das cidades mais poluídas do mundo, ocupando o topo da lista de capitais poluídas, acima de Nova Deli, na Índia, e de Pequim, na China.

Na maior parte do ano, a cidade está coberta por uma nuvem de poluição, com muitos veículos antigos e poluentes a circularem e geradores de eletricidade que trabalham continuamente com combustível de baixa qualidade.

No entanto, a grande maioria das vítimas são envenenadas pelo ar nas suas próprias casas, já que as famílias queimam tudo o que podem para se aquecer nos invernos de Cabul, onde as temperaturas descem frequentemente abaixo de zero.

Carvão, lixo, plástico e borracha são queimados dentro de casa pelas pessoas mais pobres, mas também por serviços como os banhos públicos ou as padarias.

Pelo menos 19.400 das mortes em 2017 foram atribuídas à poluição existente dentro das próprias casas afegãs, o que contribuiu para uma diminuição da expectativa de vida de dois anos e dois meses, de acordo com o 'State of Global Air'.

Os danos ao meio ambiente pioraram muito no decorrer de quase duas décadas de guerras.

As guerras que afetaram Cabul destruíram "todas as infraestruturas urbanas de distribuição de água, eletricidade, transportes públicos, além das áreas verdes", alertou o vice-diretor da Agência Nacional afegã de Proteção Ambiental, Ezatullah Sediqi.

Há três ou quatro décadas, "as pessoas queriam vir a Cabul para respirar o ar puro" da cidade, lembrou, admitindo que, hoje, o combate à poluição é "um enorme desafio".

As questões ambientais surgem muito abaixo na lista de prioridades de um Governo que luta com questões básicas de segurança, com uma corrupção desenfreada e com uma economia em queda.

Ainda assim, o departamento ambiental do município de Cabul lançou um novo programa para controlar a circulação de veículos antigos, considerada uma fonte significativa de poluição.

"O combate à poluição é importante como combater o terrorismo", explicou o diretor do departamento, Mohammad Kazim Humayoun.

As autoridades alertaram também para a expectativa de um inverno ainda mais frio do que o habitual e o município pediu aos moradores da cidade que não queimem lixo para obter calor, apelando à sua substituição por combustível.

"Se todos seguirem as instruções estabelecidas pelo município de Cabul, a poluição poderá ser controlada", garantiu a porta-voz da câmara municipal, Nargis Mohmand.

O problema é que o combustível é muito caro em Cabul e nem sequer está disponível para todos. Ter um aquecedor elétrico é um luxo quase inatingível e, mesmo quem o consegue terá de enfrentar cortes frequentes de energia na cidade.

O Governo lançou recentemente uma campanha de consciencialização ambiental, através de anúncios na televisão, programas em escolas e universidades e abordagens nos discursos feitos das mesquitas.

A ideia é não só alertar para os prejuízos causados pela poluição, mas também informar sobre as medidas que cada um pode tomar para reduzir o seu impacto no ambiente.