Ciência

Por que é que os mosquitos preferem picar humanos? "Tradição" tem milhares de anos

Por que é que os mosquitos preferem picar humanos? "Tradição" tem milhares de anos

São um dos nossos piores pesadelos, especialmente durante o verão. Muitas vezes nos tiram o sono com o seu forte zumbido e tantas outras nos deixam uma ou mais picadas. No dia a seguir, vem a comichão. E assim se mantém uma "tradição" de milhares de anos. Mas por que é que os mosquitos não nos resistem?

A questão é lançada pelo jornal espanhol "El País", que procurou a resposta através de uma equipa de investigadores da Universidade de Princeton (EUA) que desenvolveu um projeto na África Subsariana a partir da recolha de desova do mosquito-da-dengue Aedes aegypti. E a razão é muito simples: atraímos algumas espécies de mosquitos que procuram a nossa água armazenada para a desova e, depois, quando a larva passa para o estágio adulto, o sangue disponível mais próximo é o nosso, com a vantagem de que não temos peles tão duras e difíceis de perfurar como as de outros animais, incluindo os domésticos.

Mas voltemos ao início. Segundo o "El País", os mosquitos transmitem doenças a aproximadamente 100 milhões de pessoas a cada ano. Existem aproximadamente 3500 espécies de mosquitos em todo o Mundo, a grande maioria das quais são generalistas que picam qualquer vertebrado que encontram no caminho.

As doenças humanas transmitidas por mosquitos são causadas por apenas meia dúzia de espécies de três géneros (Aedes, Anopheles e Culex), que evoluíram para nos atingir especificamente, graças ao dióxido de carbono que emitimos e aos eflúvios do nosso corpo.

Os dados genómicos são consistentes com a hipótese de que os grupos de mosquitos especializados em humanos evoluíram dentro de um período cultural. Mas a questão, salienta o jornal espanhol, passa por descobrir que compensações fisiológicas, anatómicas, morfológicas e comportamentais levaram alguns mosquitos a escolherem picar humanos e não os animais domésticos que nos acompanharam muito antes de nos tornarmos sedentários.

Os mosquitos especializados em humanos não picam apenas pessoas, mas tendem também a reproduzir-se em habitats modificados pelo homem. Estes insetos colocam os ovos na água e os humanos são os únicos animais que manipulam a água para extrair, canalizar e acumular para consumo doméstico. Portanto, especula-se que a dependência reprodutiva dos mosquitos das fontes de água humanas, principalmente em regiões áridas, também pode ter desempenhado um papel fundamental na especialização desses insetos.

O mosquito-da-dengue Aedes aegypti, por exemplo, que foi o escolhido pela equipa de investigadores da Universidade de Princeton, é um dos mais temíveis mosquitos especializados em humanos. São responsáveis ​​pelo vírus Zika, febre amarela e dengue, e as suas populações são divididas em duas subespécies.

A subespécie de aegypti prospera nos habitats urbanos tropicais da América e da Ásia, onde se especializou em picar humanos ao ponto de 95% da comida das fêmeas, fortemente atraídas pelo odor do nosso corpo, partir do sangue humano.

Por outro lado, as fêmeas em populações generalistas da subespécie formosus tendem a preferir o cheiro de outros vertebrados não humanos de cujo sangue se alimentam. Acredita-se que o especialista antrópico tenha evoluído de ancestrais generalistas africanos entre 5000 e 10000 anos atrás, possivelmente no norte do Senegal ou Angola.

Como todos os mosquitos, as duas subespécies põem os ovos na água, então os investigadores começaram a colocar milhares de ovitrampas, pequenos copos cheios de água e folhas sujas que simulam as poças de água que constituem o habitat ideal para a desova.

Para obter amostras significativas dos diferentes ambientes em que os mosquitos se reproduzem, as ovitrampas foram colocadas perto de grandes centros populacionais (em cidades com até mais de 2000 pessoas por quilómetro quadrado) e em áreas despovoadas cobertas por vegetação natural onde os mosquitos raramente encontram pessoas. Os investigadores também cobriram uma ampla gama de climas, de habitats semi-áridos com chuvas sazonais a ecossistemas florestais com chuvas em todo o ano.

No total, os ovos de mosquito foram recolhidos em 27 locais diferentes. Uma vez secos, os ovos comportam-se como sementes: podem permanecer dormentes por seis meses a um ano antes da eclosão. Isso permitiu transportá-los para Princeton com o objetivo de criar novas populações em condições de laboratório.

Mais tarde, os investigadores atraíram os insetos com cheiros de humanos e porquinhos-da-Índia. O ensaio consistiu em construir o que se pode chamar de olfatómetro: uma grande caixa de plástico cheia de mosquitos, com dois tubos removíveis. Enquanto uma cobaia foi colocada num, um dos investigadores inseriu o braço por várias horas no outro. Ambas as iscas estavam protegidas de picadas diretas por filtros que impediam a passagem de insetos.

Poucos minutos após a colocação dos tubos com as respetivas iscas, os mosquitos entraram por um ou outro tubo. Depois de algum tempo, os tubos foram removidos para contar quantos escolheram um ou outro lado. Os resultados revelaram que os mosquitos de áreas densamente povoadas gostavam mais dos eflúvios humanos. O resultado mais revelador estava relacionado com o clima: os mosquitos que vinham de locais que tiveram uma estação chuvosa seguida de uma longa estação quente e seca preferiram os humanos.

O motivo pode estar relacionado com o ciclo de vida dos mosquitos. O Aedes aegypti põe os ovos logo acima da superfície da água em buracos de árvores, cavidades e fissuras na rocha, ou em recipientes artificiais. Se os ovos forem mantidos húmidos, podem eclodir imediatamente. No entanto, os ovos postos no final das chuvas em áreas selvagens devem ficar dormentes para sobreviver à estação seca até que a chuva volte, um desafio particularmente difícil quando a seca é longa e quente.

Assim, a água parada ou armazenada, fator essencial para as larvas, é difícil de encontrar nesses ambientes extremamente áridos, mas abunda em torno das populações humanas que recolhem a água para subsistência, fornecendo aos mosquitos uma incubadora de água para o desenvolvimento ao longo do ano das suas larvas.

Por um lado, embora as estações longas, quentes e secas fossem o principal fator de seleção, as populações de mosquitos em regiões áridas evoluíram para a especialização em humanos para tirar proveito da sua dependência da água armazenada para a desova. Em segundo lugar, quando a larva passa para o estágio adulto, o sangue disponível mais próximo é o dos humanos, com a vantagem de que estes não têm as peles duras e difíceis de perfurar de outros vertebrados, incluindo os domésticos.

As análises genómicas também revelaram que os mosquitos especialistas em humanos diferem geneticamente dos mosquitos generalistas, e que a preferência pelos humanos se desenvolveu num único local indeterminado e espalhou-se por África conforme o clima seco se espalhava pelo continente. Então, acredita-se que, na época da escravatura, o tráfico de escravos tenha espalhado doenças como a malária para outras áreas tropicais.

Embora a investigação publicada na Current Biology se tenha focado na origem e na história evolutiva dos mosquitos, se as suas conclusões forem relacionadas com os dados climáticos do IPCC e de população da ONU, os resultados sugerem que, como consequência das mudanças climáticas e da cada vez mais intensa urbanização, num futuro próximo haverá mais mosquitos a transmitir doenças humanas em todo o Mundo.

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