Pandemia

Por que razão fugir da Coreia do Norte é cada vez mais difícil?

Por que razão fugir da Coreia do Norte é cada vez mais difícil?

Passar a fronteira da Coreia do Norte para o outro lado é cada vez mais difícil. Desde que Kim Jong-un tomou posse, em 2011, o número de desertores tem vindo a diminuir. E a pandemia acentuou a diferença. Um norte-coreano, agora a viver no Sul, explica as razões.

Todos os anos, centenas de pessoas tentam a perigosa jornada para fora da Coreia do Norte, mas o número de desertores tem caído nos últimos anos, à medida que as autoridades norte-coreanas reforçam o patrulhamento das fronteiras. A pandemia tornou quase impossível o que já era difícil.

Num gráfico com o número de norte-coreanos a darem entrada na Coreia do Sul entre 2002 e 2020, apresentado numa reportagem da BBC, verifica-se um aumento constante das fugas até 2011, ano em que Kim Jong-un tomou posse como líder, e uma descida acentuada a partir daí. E com o surgimento da pandemia, Pyongyang apertou ainda mais as fronteiras: entre janeiro e setembro deste ano, segundo dados sul-coreanos, só 195 pessoas completaram o plano de fuga - e mesmo essas já estavam na China à espera de viajarem para Seul. O número representa uma queda de 80% face a 2019, quando 1047 norte-coreanos entraram no país vizinho.

"Antes, eu diria que havia cerca de 50% de hipótese de sucesso para os desertores. Mas desde que Jong-un tomou posse, diria que não há sequer 10%", contou à estação televisiva britânica o norte-coreano Ha Jin-woo, que fugiu em 2014 e ajudou compatriotas a seguirem-lhe os passos. Embora haja mais do que uma possível rota de fuga, o plano mais prático para a maioria dos norte-coreanos é escapar pela fronteira com a China, a norte.

Subornos à patrulha já não chegam

Ha, antigo corretor financeiro, contou à BBC porque é que o caminho para a liberdade é hoje mais estreito: "Naquela altura, podias simplesmente subornar a patrulha fronteiriça local e dizer que precisavas de ir ao mercado na China para depois voltares", mas "a autoridade da patrulha fronteiriça aumentou muito e agora os agentes podem simplesmente balear alguém que esteja a tentar passar a fronteira e não vão ser responsabilizados por isso". Além do aumento da rigidez policial, a cerca elétrica de arame farpado entretanto instalada na fronteira também obrigou Ha a aprimorar o método de fuga para quem lhe pedia ajuda: começou a recorrer a contactos militares e a esconder os desertores nos carros de altas patentes, uma vez que estes não são inspecionados pelos guardas fronteiriços.

Mas até isso se tornou mais difícil e as travessias de alto risco foram-se tornando numa opção, novamente com ajuda militar. "Ainda há lacunas e não é possível pôr uma cerca ao longo de um penhasco", contou Ha. Mas é possível corromper um comandante do Exército para se certificar de que determinada área está livre de patrulha durante meia hora. A partir daí, os desertores fazem o resto: descem pela zona montanhosa e atravessam o rio que divide a Coreia do Norte e a China. Do lado chinês, são entregues a uma equipa encarregue de os levar numa carrinha até ao Sudeste Asiático e o jogo das escondidinhas continua: apanhados pelas autoridades chinesas, seriam novamente mandados para Coreia. "Aí, serias considerado um espião e serias morto pelo governo norte-coreano. Uma palavra errada pode significar a morte. Por isso, eu continuo a dizer-lhes [aos desertores] que se forem apanhados na China têm de dizer que estão ali porque precisam de sobreviver e ganhar a vida", conta Ha, que a muito custo conseguiu chegar à Tailândia, mesmo tendo enfrentado a perseguição de um navio patrulha no rio Mekong e assistido ao afogamento de pessoas com quem seguia.

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Se tiverem a sorte de Ha e entrarem num país que não os deporte para a Coreia do Norte, os desertores entregam-se à Polícia ou à embaixada sul-coreana. Finalmente, no fim de uma odisseia que pode durar até seis meses, embarcam num avião com destino à Coreia do Sul, reporta a BBC.

"Só tinha visto aviões em imagens. Pareceu um sonho sentar-me no avião e rumar à Coreia do Sul. Quando comi bibimbap [prato coreano] no avião, comecei a chorar e pensei 'foi para isto que arrisquei a minha vida'", recorda Ha.

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