Líbano

Português em Beirute: "Olhar para os libaneses é olhar para um túnel e não ver luz"

Português em Beirute: "Olhar para os libaneses é olhar para um túnel e não ver luz"

José Cortez estava há menos de 24 horas em Beirute, no Líbano, quando foi "apanhado" pelas violentas explosões que atingiram a capital. O português de 26 anos sofreu apenas ferimentos ligeiros. Nos últimos dias, tem ajudado a cidade como pode: varre os destroços nas ruas, prepara refeições para os médicos nos hospitais e até participou num protesto.

A 4 de agosto, há precisamente uma semana, José Cortez estava apenas há algumas horas em Beirute, no Líbano. Tinha regressado de uma aula de árabe e, antes de voltar a casa, parou num café. Ouviu uma primeira explosão: "um barulho menos forte, mas já se sentia uma onda de calor", conta ao JN. Seguiu-se um embate com mais impacto. "Ficou tudo mais claro, como uma tempestade de areia". O português foi projetado um metro contra uma máquina. "Tive imensa sorte, fiquei apenas com uns cortes". Estava apenas a um quilómetro e meio do porto de Beirute, onde se deram as explosões.

A tragédia, que fez pelo menos 160 mortos e mais de seis mil feridos, foi como uma "bomba" na cidade. "Olhei à minha volta e estava tudo destruído, vidros partidos, portas destruídas, garagens abertas com o impacto das explosões, pessoas a sangrar, algumas inconscientes e outras aos berros". José Cortez, que tinha estado alguns meses antes como voluntário em campos de refugiados na Grécia, equacionou todas as hipóteses. "Pensei que pudesse ser um ataque israelita ou uma bomba num carro". Após correr vários quilómetros em pânico até casa, percebeu a dimensão do incidente. Beirute ficou destruída. "Imagine-se o que é pensar em Lisboa ou no Porto em que metade destas cidades deixaram de existir". A capital do Líbano está assim.

No dia seguinte, o português de 26 anos não ficou parado em casa (parcialmente destruída pelas explosões), pegou numa vassoura e varreu destroços dos edifícios nas ruas, preparou refeições para os médicos "sobrecarregados" nos hospitais e, no último sábado, participou num protesto contra o governo. "Houve um imediato sentido de solidariedade entre a população, mas depois surgiu uma raiva absolutamente inacreditável", observa. "E totalmente justificada".

As reivindicações são claras, para José Cortez: durante vários anos, os governos libaneses ignoraram quase três mil toneladas de nitrato de amónio armazenados no porto. Depois da tragédia, e com uma crise económica persistente e agonizante, a "fúria" da população era inevitável. "Após as explosões, os libaneses tinham uma mensagem muito simples: "Agora limpamos os destroços, no sábado às 17 horas vamos limpar o parlamento e o governo". Após a demissão de quatro ministros (Informação, Ambiente, Justiça e Finanças) nos últimos dias, foi a vez de Hassan Diab, primeiro-ministro do Líbano, seguir o mesmo caminho esta segunda-feira, 10 de agosto. O poder das ruas pode ser forte, mas também o é o das autoridades, diz o português. "O protesto de sábado foi das 17 às 22 horas e durante todo este tempo, o gás lacrimogéneo foi sempre usado".

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O país que o jovem encontrou na segunda-feira passada, 3 de agosto, não era um mar de rosas. "A moeda [libra libanesa] perdeu 80% do valor e estava a chegar à hiperinflação. As pessoas que pouparam durante várias décadas, de repente perderam 80% do dinheiro", adianta. O passado de uma guerra civil, a tensão com Israel e a corrupção dos mais poderosos não antevia bons tempos para o Líbano. Depois veio a pandemia da covid-19 com as unidades de saúde sobrecarregadas de pacientes. Parecia que nada podia piorar até ao dia das explosões. "Os hospitais estavam a recusar feridos porque não tinham espaço para eles", diz José Cortez.

O futuro próximo do Líbano é, por isso, um cenário difícil de imaginar. Até para um estrangeiro acabado de chegar ao país, prestes a frequentar um mestrado em Beirute, cujo início não sabe se estará ameaçado. "Olhar para os libaneses é como olhar para um túnel e não ver luz. Vê-se pessoas a chorar e que dizem que não há mais nada a fazer no Líbano". Contudo, não se resignam. Os protestos vão-se repetir nos próximos dias e meses, antecipa o jovem. "Vão continuar a lutar por aquilo que é deles".

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