China

Português revela como viveu a epidemia de Covid-19 do outro lado do mundo

Português revela como viveu a epidemia de Covid-19 do outro lado do mundo

A residir na cidade de Shenzhen, a mais de mil quilómetros de Wuhan, onde iniciou o surto de coronavírus, Bruno Martins explica como foi a vida na China nestes últimos meses de epidemia e compara a situação com Portugal. No caso chinês, uma aplicação de registo e controlo de movimentos foi importante para ajudar a parar a doença.

A viver de perto a situação do coronavírus, Bruno Martins, geógrafo de Aveiro que trabalha em eletrónica de consumo do outro lado do mundo, elogia as ações das autoridades e a forma como a pandemia está a ser tratada na China, país onde tudo começou. Entre os destaques, estão as mensagens de alerta que chegam ao telemóvel, mas também uma aplicação criada de propósito para conter o Covid-19.

"As pessoas têm de fazer um controlo através de uma aplicação de telemóvel criada para o efeito. Aqui usa-se muito o WeChat, que dá a georreferência da pessoa. Sempre que vou, por exemplo, a um centro comercial, tenho de fazer a leitura de um código QR de forma a registar o sítio onde vou. Há também um termómetro que controla a temperatura no momento. Se virem que a pessoa está a começar a ficar doente com o vírus, verificam essa informação em conjunto com a localização registada da pessoa e toda a gente que esteve nesse local tem de ficar em quarentena. É uma logística muito grande", referiu.

Existe também uma plataforma que permite ver os dados de infetados, infetados graves, falecidos e curados, dividido por regiões e cidades, que é atualizada de 30 em 30 minutos.

Sobre as medidas de limpeza, Bruno destaca que "nos elevadores dos prédios fazem a manutenção das superfícies e há um registo do funcionário, da hora e outra pessoa possivelmente vai verificar isso".

PUB

Nas ruas, que estiveram quase desertas durante algum tempo, "existem pessoas a desinfetar a várias alturas do dia. Passam carros com altifalantes na rua pela manhã a alertar para as medidas de higiene. Camiões deitam água para o chão e possivelmente químicos no ar para desinfetar o espaço público. Passam em todo o lado. Por isso, sinto que há segurança e as autoridades fizeram muito para conter este flagelo, seria muito pior se ninguém respeitasse nada", explicou.

O início

Quando regressou ao país depois de ter estado em Portugal, ficou em isolamento por opção. A sua cidade não registou muitos casos graves de infeção, no entanto, as autoridades recomendaram um período de quarentena não obrigatória, que foi respeitada por grande parte da população. Os habitantes podiam sair de casa, mas tinham um controlo mais apertado, com a utilização de luvas, máscaras e por vezes óculos de sol.

"Apenas um número mínimo de pessoas saía de casa. Eu não saí da comunidade, tenho um supermercado à porta de casa, mas não quis fazer coisas que seriam muito diferentes da minha rotina como ir a locais mais distantes. Aceitei sempre tudo o que me disseram", referiu Bruno.

"As encomendas online funcionam muito bem, os transportadores têm um controlo da temperatura agarrado ao saco, que regista a temperatura de todas as pessoas por quem o saco passou. Dá para ver o nome e muitas informações sobre elas", referiu Bruno, destacando a qualidade de controlo das empresas chinesas.

Quem quisesse deslocar-se a Hong Kong ou Macau teria de ficar de quarentena durante 14 dias, período de incubação do vírus, assim que chegasse ao destino. O mesmo acontecia a quem regressasse dessas regiões.

Bruno conta que em Wuhan a situação foi alarmante no início. Quando chegaram as ordens para a região ficar em quarentena e fechar as fronteiras, havia pessoas a entrar em malas de carros para tentar sair, aquilo que considera uma reação humana normal.

Mas a situação na China já está a melhorar e em Wuhan já há pessoas a poder sair da cidade. Mostraram, durante o período de quarentena, não terem nenhum problema de saúde e então ficaram livres para se deslocarem com as devidas precauções. "O controlo desde janeiro foi muito eficaz", explicou.

"A vida está a regressar à normalidade, mas usamos máscara e tomamos as devidas precauções e isso foi muito importante para a presença do vírus ter diminuído. Tivemos muitos cuidados sempre que saíamos de casa. A situação não está resolvida a 100%, mas está a melhorar graças a um bom trabalho de controlo no terreno", disse.

Bruno Martins deixou de trabalhar nos escritórios da empresa e passou a desempenhar funções online, assim como a maioria dos colegas. As autoridades fizeram uma vistoria em todos os edifícios individualmente, para garantirem que eram cumpridas as regras de segurança e higiene e só era permitida a entrada nos locais que estivessem preparados para receber trabalhadores.

Relativamente aos salários, explicou que em janeiro e fevereiro o seu salário não foi reduzido, mesmo tendo uma semana de férias devido ao calendário chinês. Algumas pessoas com rendas de habitação, ou comerciais, tiveram as mesmas comparticipadas.

Situação de Portugal

Bruno Martins está ciente da situação do Covid-19 em Portugal. Refere que a reação é sempre de surpresa, mas que as informações de proteção foram divulgadas pelas organizações mundiais e nacionais de saúde.

"Aqui na China existe proteção e controlo diariamente. Em todo o lado há um controlo intensivo e esse trabalho não está a ser feito nas fronteiras. Poucos países fecham as fronteiras ou verificam pessoa a pessoa, se não existe controlo as pessoas têm de se precaver", disse.

"Portugal não tem uma plataforma como aqui para controlar com quem se esteve ou onde se esteve, porque nesses 14 dias em que o vírus está em incubação é complicado relembrar tudo o que se fez. Se querem segurança vão ter de atuar com segurança", sublinhou. Apesar de as autoridades garantirem que as máscaras não são o melhor meio para evitar a infeção com o vírus, o português reforça a importância delas no combate à propagação na China.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG