Mali

Portuguesa relata abusos e violações após golpe de estado no Mali

Portuguesa relata abusos e violações após golpe de estado no Mali

Duas semanas depois do golpe militar no Mali, a população tem falta de eletricidade e combustíveis, o preço dos alimentos duplicou e sucedem-se relatos de abusos e violações, segundo uma portuguesa residente em Bamako.

Uma junta militar, comandada pelo capitão Amadou Sanogo, derrubou a 22 de março o regime do presidente Amadou Toumani Touré, num golpe que mereceu condenação internacional unânime e colocou o Mali sob um embargo total da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Os Estados Unidos impuseram também restrições de viagem aos membros da junta militar.

Na origem do golpe de Estado terá estado o descontentamento dos militares com a falta de meios para combater os rebeldes tuaregues no norte do país, mas na sequência da instabilidade política, as forças tuaregues têm conquistado nos últimos dias o controlo de várias cidades no norte do Mali.

"Um saco de arroz que custava 30 mil francos CFA (45 euros) hoje custa 50 mil (76 euros). Não temos luz durante o dia. As lojas não podem abrir, não se podem vender produtos alimentares. O embargo é total, as fronteiras terrestes estão fechadas e já há centenas de camiões na fronteira para entrar no Mali", disse à agência Lusa, por telefone, Glória Silva.

Esta portuguesa, que vive em Bamako há dois anos, explicou que o Mali tem vários depósitos de combustível alugados em Dacar, Senegal, e que todos os dias o combustível é transportado por camiões para o Mali, o que não está a acontecer por causa do embargo.

"Em Bamako já começa a haver falta [de alimentos e combustível], mas em Gao as pessoas estão mesmo mal, sem nada", disse Glória Silva, adiantando que, no máximo, as populações conseguirão aguentar 15 dias.

Alegria deu lugar à raiva

Ainda assim, a portuguesa acredita que o embargo será a única forma de levar a junta militar a deixar o poder no Mali. "O chefe da junta sabe disso e já mandou uma missão à Nigéria para negociar porque quer uma saída honrosa" da situação, sublinhou, acrescentando que o sentimento inicial de alegria da população em relação à iniciativa da junta militar se transformou em "muita raiva".

"Está prevista hoje uma manifestação conta o capitão Sanogo em que vão participar militares", disse a portuguesa, acrescentando que não há qualquer notícia sobre o deposto presidente Touré e que a junta mantém detida a primeira-ministra Mariam Kaidama Sidibé.

A portuguesa diz que os malianos continuam a circular pela cidade, mas que os estrangeiros permanecem em casa a conselho dos respetivos países, e admite a hipótese de deixar o Mali se a situação não sofrer alterações.

"Estamos à espera que alguém tire este senhor do poder, quanto mais não seja o povo maliano. Se assim não for, possivelmente vou ter que sair porque não dá para continuar a viver assim", disse, mostrando-se receosa que os tuaregues do norte, que estarão a ser apoiados pela al-Qaeda, cheguem a Bamako e comecem a raptar estrangeiros.

Glória Silva disse que tem ouvido relatos de que em Gao as mulheres estão a ser violadas, em Timbuktu as mulheres só podem sair à rua totalmente cobertas e que em Kati estão a obrigar toda a gente a ir à mesquita sob a ameaça de arma.

"O Mali era um Estado laico e uma maravilha para se viver e agora está completamente mudado", concluiu.

Segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros, na altura do golpe de Estado estavam no Mali cerca de duas dezenas de portugueses.