Venezuela

Portugueses da Venezuela esperam que "El Caracazo" não se repita

Portugueses da Venezuela esperam que "El Caracazo" não se repita

Com a memória à "flor da pele", a comunidade portuguesa da Venezuela recorda com tristeza, como se fosse hoje, os violentos acontecimentos que há 25 anos sacudiram o país, esperançada que "a história, não se repita".

"Vivemos dias de angústia, uma experiência que nos ensinou muito, sobretudo que a violência não resolve nada", disse Francisco Freites.

Em declarações à Lusa, este carpinteiro madeirense lembra que os protestos mais fortes decorreram entre 27 e 29 de fevereiro de 1989, mas a contestação começou onze dias antes.

Há 25 anos uma série de medidas económicas implementadas pelo ex-Presidente Carlos Andrés Pérez desencadearam uma série de ações violentas em várias localidades da Venezuela, que ficaram conhecidas como "El Caracazo".

"Era difícil ir a qualquer sítio. Vi pessoas que carregaram às costas os produtos que conseguiam tirar das lojas e ouviam-se muitos tiros. Muitos estabelecimentos comerciais foram pilhados, muitos deles de portugueses, entre eles uma sucursal da rede de supermercados Central Madeirense, em San Bernardino (centro de Caracas)", recorda Francisco Freites.

O ex-presidente do Centro Português de Caracas Fernando Santos, na altura a trabalhar na área da construção civil, lembra-se também "muito claramente" do que aconteceu.

"Tudo começou com o tema do aumento da gasolina. Estive no Estado de Arágua, onde as coisas estiveram fortes e não gostava que isso se voltasse a passar", disse, sublinhando que a situação venezuelana na altura, apesar de difícil, não justificava o que aconteceu e está convencido de não foi tudo em total espontaneidade.

"Acredito que foram coisas preparadas, havia fatores políticos interessados, não foi de um dia para o outro", frisou.

Vários portugueses disseram à Agência Lusa que começaram por olhar "espantados" para as televisões, quando passaram as primeiras imagens da confusão nas ruas e das pilhagens que começaram pela cidade de Guarenas, a leste da capital.

Lembram-se também do temor ao sentir a vibração das janelas, quando aviões militares sobrevoaram a capital venezuelana.

Entre 27 e 29 de fevereiro de 1989 centenas de pessoas morreram, foram incendiados autocarros e muitos estabelecimentos comerciais foram pilhados e destruídos em Caracas, Guarenas, La Guaira, Maracay, Valência, Barquisimeto, Guayana e Mérida.

No centro dos protestos estavam um "pacote económico" implementado pelo falecido Presidente Carlos Andrés Pérez (1922- 2010), que continha um programa de ajustes de aplicação imediata e graduais, como o aumento do preço da gasolina e o aumento do preço dos transportes.

As medidas implicaram a liberação de preços dos produtos, salvo alguns alimentos do cabaz básico, e a eliminação do sistema de controlo cambial vigente e geraram um aumento brusco dos bens junto da população que viu reduzida drasticamente a sua capacidade de compra.

O programa, sob supervisão do Fundo Monetário Internacional, mexeu nas taxas de juro ativas e passivas, o aumento do preço dos serviços públicos como o telefone, água potável, eletricidade e gás doméstico, a redução do défice fiscal para 4% do PIB e a congelação das nomeações na administração pública.

O "pacote económico" seria aplicado ao longo de três anos, com aumentos médios da ordem dos 100% dos preços de alguns produtos, mas os salários não subiriam mais de 30 por cento.

Na sequência dos violentos protestos a Venezuela suspendeu durante pelo menos dez dias as garantias constitucionais.

Os números oficiais apontam para 277 civis mortos, mas fontes não oficiais insistem que foram muitos mais.

Um grande número de portugueses optou por regressar a Portugal depois do "El Caracazo".