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"Precisamos de ser duros, sujos e maus". Trump regressa a Washington ao fim de 18 meses

"Precisamos de ser duros, sujos e maus". Trump regressa a Washington ao fim de 18 meses

Um ano e meio após deixar a liderança do país, e pisar pela última vez o solo da capital norte-americana, o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, voltou a Washington e criticou a espiral de "humilhação" em que o país tem caído, apresentando soluções para acabar com a criminalidade. Embora não confirme que será candidato às presidenciais de 2024, o republicano piscou o olho a uma reeleição.

Numa altura em que decorrem as investigações sobre o ataque ao Capitólio, que ocorreu a 6 de janeiro de 2021, e no qual Donald Trump está a ser acusado de incitar ao ódio antes do episódio e, posteriormente, nada ter feito para travar os manifestantes que invadiram a casa da democracia norte-americana, o antigo líder da Casa Branca mostrou-se alheio às imputações e, esta terça-feira, voltou de cabeça erguida à cidade que o acolheu durante quatro anos.

Apesar do regresso à capital ser motivado por um convite para participar num evento do conservador America First Policy Institute, cujo objetivo seria debater sobre estratégia política, Trump aproveitou o palco, onde discursou ao longo de 90 minutos, para se gabar de ter sobrevivido a dois impeachments e criticar o cenário de violência que ensombra os EUA - desviando-se sempre das acusações judiciais de que está a ser alvo.

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"Duros, sujos e maus"

"O nosso país está a caminhar para o inferno. É um lugar muito inseguro", constatou, acrescentando que "o país foi posto de joelhos. Quem imaginaria?". O ex-presidente focou o discurso, que teve uma audiência de mais de 800 pessoas, em questões de segurança pública, deixando ainda críticas à administração de Joe Biden.

Como solução, Trump defende que as autoridades devem reconsiderar a atuação perante o aumento da criminalidade e deixa uma proposta: "Precisamos de um esforço total para derrotar os crimes. Precisamos de ser duros, sujos e maus", sublinhou, apelando a uma maior autonomia da polícia na resolução de situações violentas.

Para Trump, o facto de a inflação estar a atingir níveis históricos, os preços da energia subirem drasticamente e a insegurança se encontrar num patamar tenebroso, mostram que nos Estados Unidos não existe "liberdade". "O nosso país está a sofrer uma humilhação histórica. Os nossos direitos e liberdades mais básicos estão cercados. O sonho americano está a ser estilhaçado", referiu, aproveitando para reafirmar que as últimas presidenciais, que colocaram os democratas no poder, foram "uma catástrofe" para os americanos. "Talvez tenhamos de o fazer novamente", atirou.

Embora não tenha tocado numa possível candidatura à Casa Branca, o antigo presidente, que classifica o último ato eleitoral como uma "fraude", defendeu que um novo mandato republicano seria capaz de alterar a atual situação, dando a entender que o futuro político dos EUA pode passar pelas suas mãos.

"Este novembro, as pessoas votarão [nas eleições intercalares] para impedir a destruição do nosso país. Estou aqui para começar a falar sobre o que devemos fazer para alcançar esse futuro quando ganharmos em 2022 e quando um presidente republicano recuperar a Casa Branca em 2024", frisou.

2024 alimenta disputa interna

Na ótica de vários analistas em política norte-americana, as propostas drásticas apresentadas pelo ex-presidente demonstram um esforço para conquistar eleitores que estão cansados do atual cenário em que o país está mergulhado, tal como um eleitorado que não pertence à sua base de apoio. Por outro lado, acredita-se que o regresso a Washington pode indicar que a disputa do Partido Republicano pela escolha do candidato para as eleições presidenciais de 2024 está prestes a começar.

No mesmo dia em que o magnata discursou na capital do país, também Mike Pence, antigo vice-presidente dos EUA, esteve presente na cidade. Num hotel a poucos quilómetros de distância do local onde o ex-líder da Casa Branca esteve, o republicano, que é visto como um possível candidato à corrida eleitoral, falava numa conferência de estudantes conservadores, onde optou por uma retórica muito semelhante à usada por Trump, porém, mantendo-se à margem das conspirações em torno do ataque ao Capitólio.

Como prioridade para o futuro, Pence - muito elogiado por vários republicanos pela firmeza de ter negado anular as eleições que deram a vitória a Biden - defendeu apenas a necessidade de "salvar a nação de uma tirania de esquerda, do socialismo e do declínio", felicitando ainda a decisão do Supremo Tribunal de banir o acesso ao aborto. "Nós salvamos os bebés, vamos salvar a América", rematou.

Ainda que as presidenciais estejam longe de acontecer, na ala republicana sobressaem-se outros possíveis candidatos. Ron DeSantos, atual governador da Florida, é visto como um dos preferidos entre os conservadores e carateriza-se por ter um perfil muito semelhante ao de Trump, já que é um fervoroso oponente das máscaras contra a covid-19, inimigo de políticas de inclusão de género e nega as alterações climáticas, no entanto, é visto como um político mais ponderado.

Uma sondagem realizada pelo Siena College, e publicada este mês pelo jornal "The New York Times", questionou uma amostra de eleitores republicanos sobre as suas intenções de voto nas próximas eleições presidenciais. Apenas 6% dos eleitores admitiram votar em Mike Pence se este entrasse na corrida. Pelo menos 25% disseram que votariam em Ron DeSantos e 49% daria o seu voto a Donald Trump.

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