Etiópia

Primeiro-ministro admite castigar soldados que violaram civis em Tigray

Primeiro-ministro admite castigar soldados que violaram civis em Tigray

Depois de reconhecer que foram cometidas atrocidades na região de Tigray, norte da Etiópia, o primeiro-ministro, Abiy Ahmed, assegurou esta terça-feira, que todos os soldados que tenham violado mulheres ou que tenham saqueado habitações na zona de conflito serão responsabilizados. Reconheceu também a presença de tropas eritreias no país que, segundo organizações de direitos humanos e jornalistas, terão também cometido massacres e violência sexual contra civis.

"Os relatórios indicam que foram cometidas atrocidades na região de Tigray", disse o primeiro-ministro num discurso perante deputados na capital, Adis Abeba.

Referindo-se à Frente Popular de Libertação de Tigray (TPLF), partido que já teve grande poder na Etiópia e que agora lidera uma resistência contra as forças da Etiópia e da Eritreia em Tigray, Abiy Ahmed garantiu que "independentemente da propaganda de exagero da TPLF, qualquer soldado responsável por violar mulheres e saquear comunidades na região será responsabilizado, pois a sua missão é proteger".

Esta é a primeira admissão pública do chefe do Governo de crimes graves naquela região do Norte e surge poucos dias depois de a CNN, canal norte-americano, e o Channel 4 News, canal britânico, publicarem investigações sobre o uso da violação como arma de guerra contra as mulheres.

Segundo a CNN, que falou com nove médicos na Etiópia e um refugiado sudanês, os casos de agressão sexual e de violação aumentaram exponencialmente desde que o primeiro-ministro lançou uma operação militar contra os líderes da TPLF enviando tropas nacionais e combatentes da região de Amhara.

O primeiro-ministro etíope, que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2019 pelos seus esforços para fazer a paz com a Eritreia, tem enfrentado pressões para pôr fim ao conflito em Tigray, bem como para permitir uma investigação internacional sobre alegados crimes de guerra, idealmente conduzida pelas Nações Unidas.

O canal norte-americano revelou ainda registos médicos e testemunhos de sobreviventes, alegando que mulheres estavam a ser violadas por gangues, bem como drogadas e mantidas como reféns por soldados.

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Os relatos das vítimas são aterradores. Na Etiópia, a vagina de uma mulher foi preenchida com pedras, pregos e plástico, contou à CNN um dos médicos que a trataram.

"Ele [um soldado] empurrou-me e disse: 'Vocês, tigrinos, não têm história, não têm cultura. Posso fazer o que quiser com vocês e ninguém se importará'", disse uma mulher sobre seu agressor à CNN, revelando que agora está grávida.

Quase todas as mulheres tratadas contam histórias semelhantes de violações levadas a cabo por soldados etíopes e eritreus.

Considerando "inaceitáveis" os eventuais ataques que tenham sido cometidos contra civis durante o conflito que se prolonga desde novembro, o primeiro-ministro etíope admitiu ainda a presença de tropas eritreias na região de Tigray.

"Depois de o exército eritreu ter atravessado a fronteira e operado na Etiópia, quaisquer danos que tenham causado ao nosso povo são inaceitáveis", disse Abiy.

"Não o aceitamos porque é o exército da Eritreia e não o aceitaríamos se fossem os nossos soldados. A campanha militar foi contra os nossos inimigos claramente visados, não contra o povo. Já discutimos isto quatro ou cinco vezes com o governo da Eritreia", revelou.

Abiy lançou a intervenção militar no início de novembro para derrubar o TPLF, que estava no poder no Tigray, cujas forças acusou de terem atacado bases do exército federal. Declarou vitória no conflito a 28 de novembro, mas alguns dos líderes da TPLF estão em fuga e prometem continuar a lutar.

Segundo o chefe do governo etíope, as autoridades eritreias afirmam que foram as TPLF que os empurraram para a batalha "disparando foguetes" contra o seu país a partir da fronteira.

Segundo Abiy, as autoridades da Eritreia prometeram partir se os soldados etíopes regressassem às trincheiras na fronteira, escavadas durante a guerra entre os dois países entre 1998 e 2000​​​​​​. "O governo da Eritreia condenou vigorosamente os alegados abusos e disse que tomará medidas contra qualquer soldado que seja acusado disso", acrescentou.

As declarações de Abiy surgem numa altura em que continuam as aumentar as preocupações com a situação humanitária naquela região do norte da Etiópia, onde vivem mais de seis milhões de pessoas.

Os Estados Unidos já consideraram os abusos cometidos durante o conflito como "limpeza étnica".

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