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Governante do Dubai organizou sequestro das filhas e aprisionou-as

Governante do Dubai organizou sequestro das filhas e aprisionou-as

O primeiro-ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos e Emir do Dubai, sheik Mohammed bin Rashid al-Maktoum, organizou os sequestros de duas das suas filhas e submeteu a sua mulher mais nova a um clima de "intimidação", concluiu um tribunal de família do Reino Unido.

Os média falam numa "extraordinária saga familiar de 20 anos, durante a qual o sheik, de 70 anos, organizou sequestros internacionais, aprisionou duas das suas filhas e privou-as da liberdade".

O jornal britânico "The Guardian" e outros órgãos de comunicação social tiveram esta quinta-feira acesso ao documento da decisão após meses de audiências privadas e uma disputa legal que chegou ao Supremo Tribunal do Reino Unido.

As conclusões podem destabilizar as relações diplomáticas do Reino Unido com os Emirados, um aliado próximo dos britânicos. As ações do sheik foram descritas pelo juiz como um comportamento que viola as leis internacionais e do Reino Unido.

Grande parte do documento de 34 páginas de Andrew McFarlane, presidente da divisão familiar do tribunal superior de Inglaterra e do País de Gales, regista os eventos ligados aos mediáticos desaparecimentos da princesa Shamsa nas ruas de Cambridge, em 2000, quando tinha 19 anos, e da princesa Latifa, que foi capturada por comandos do exército indiano no Oceano Índico em 2018, aos 32 anos, antes de ser devolvida à força ao Dubai.

A denúncia sobre as ações de Mohammed bin Rashid al-Maktoum só surgiu depois de a sua sexta e mais jovem mulher, a princesa Haya Bint al-Hussein da Jordânia, de 45 anos, ter fugido para Londres em abril do ano passado com os dois filhos menores. A tentativa do sheik de levar as crianças de volta ao Dubai desencadeou uma ação legal nos tribunais de família do Reino Unido.

Haya resistiu e pediu uma ordem de proteção de casamento forçado em relação à filha, alegando que o sheik estava a tentar casá-la com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman bin Abdulaziz Al Saud, que foi acusado de estar envolvido no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi. O tribunal não conseguiu provar essa alegação.

McFarlane esclarece que a sua decisão "pode ​​muito bem envolver descobertas, ainda que no padrão civil, de comportamentos que sejam contrários ao direito penal da Inglaterra e do País de Gales, ao direito internacional, ao direito marítimo internacional e às normas de direitos humanos internacionalmente aceites". O padrão civil é uma conclusão feita sobre o balanço de probabilidades, ou seja, é mais provável que a alegação não seja verdadeira, ao contrário do padrão criminal, que não deixa espaço para dúvidas.

O sheik Mohammed tem 25 filhos. Os dois com a princesa Haya são os mais novos.

O acusado recusou participar nas várias audiências no Palácio Real da Justiça, no centro de Londres, ao contrário da princesa Haya, que teve uma presença constante no tribunal, ao lado da advogada Fiona Shackleton.

O documento do julgamento detalha o clima de assédio e intimidação sofrido por Haya. O juiz aceitou todas as alegações da princesa como verdadeiras no balanço de probabilidades, incluindo que o sheik: tentou sequestrá-la de helicóptero; ordenou que armas fossem deixadas no seu quarto; provocou-a por uma relação adúltera com um guarda-costas; divorciou-se dela sem lhe dizer; ameaçou tirar-lhe os filhos; publicou poemas ameaçadores sobre ela na Internet.

McFarlane revela que a relação entre Mohammed e Haya piorou e que em 2017 ou 2018 ela se envolveu "numa relação adúltera com um dos guarda-costas".

No início de 2019, Haya começou a mostrar interesse nos supostos sequestros de Shamsa e Latifa. De acordo com o julgamento, o marido começou então a ameaçá-la e, em fevereiro, divorciou-se dela sob a lei islâmica sem informá-la.