Médio Oriente

Príncipe Hamzah: de filho preferido do rei jordano à prisão domiciliária

Príncipe Hamzah: de filho preferido do rei jordano à prisão domiciliária

O ex-príncipe herdeiro da Jordânia, afastado da linha de sucessão desde 2004, voltou agora aos holofotes políticos. Depois de ter acusado o regime jordano de corrupção, o príncipe Hamazah veio agora jurar fidelidade ao rei Abdullah II. Desde sábado que está em prisão domiciliária no palácio onde vive em Amã por alegadamente querer "destabilizar a segurança" do país. Apesar de nunca ter havido um confronto público como este, as tensões dentro da família real já eram visíveis há algum tempo.

A Jordânia é uma das nações mais estáveis do Médio Oriente, por isso quando no sábado o meio-irmão do rei Abdullah II e ex-herdeiro da coroa alegou estar em prisão domiciliária, a notícia foi recebida com estranheza pela comunidade internacional.

Acusado pelas autoridades jordanas de ter tido "contacto com partes externas sobre o momento mais apropriado para começar a agir no sentido de desestabilizar a segurança", o príncipe Hamzah revelou, num vídeo enviado à BBC no sábado, estar sem segurança e impedido de comunicar com o exterior. Ainda na mesma mensagem, o filho do falecido rei Hussein acusou o regime jordano de ser corrupto e de colocar a população à mercê de um sistema de favorecimento pessoal e financeiro do monarca.

A tensão familiar sentida no seio da monarquia da Jordânia

A alegada conspiração surgiu numa altura em que cresce o descontentamento entre o povo jordano. Antes da pandemia de covid-19, o país já enfrentava um crescimento lento da economia, mas que piorou com a paragem do turismo, um dos setores mais importantes para o Produto Interno Bruto (PIB) do país. Ainda no mês passado, o reino do Médio Oriente teve pequenas mas intensas manifestações, no 10º aniversário do início dos protestos da Primavera árabe do país.

Durante anos, o príncipe Hamzah esteve marginalizado e por causa disso nunca foi considerado uma ameaça para a monarquia da Jordânia. No entanto, um analista da situação política do país, que não se quis identificar por motivos de segurança, garantiu à agência France-Presse (AFP) que recentemente o príncipe Hamzah "aumentou as críticas ao que ele considera de corrupção no governo no seu círculo de amigos". Segundo ele, "há um certo ressentimento de sua parte porque nunca digeriu totalmente a perda do título de herdeiro".

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Hamzah é o filho mais novo do antigo rei Hussein, fruto do casamento com a Rainha Noor, de origem americana. Antes de morrer, em 1999, Hussein designou Hamzah como príncipe herdeiro e o seu meio-irmão Abdullah, filho mais velho, como rei, mas em 2004 o título de príncipe herdeiro foi-lhe retirado e conferido ao filho mais velho de Abdullah II, tal como manda a constituição do país.

Embora não houvesse sinais de rivalidade entre os dois irmãos, em 2018 Hamzah criticou a política governamental instaurada, acusando os responsáveis políticos de "gestão falhada" após a aprovação de uma lei de impostos sobre o rendimento.

Apesar de ter negado qualquer conspiração contra o atual rei no poder, o ex-herdeiro da coroa continuou a criticar o Governo no poder: "Não sou responsável pelo colapso na governação, pela corrupção e pela incompetência que prevaleceram na estrutura do Governo nos últimos 15 a 20 anos", sublinhou o príncipe jordano no vídeo enviado à BBC.

"O bem-estar [dos jordanos] foi colocado em segundo lugar por um sistema que decidiu que os interesses pessoais, financeiros e que a corrupção eram mais importantes do que a vida, a dignidade e o futuro das 10 milhões de pessoas que aqui vivem", continuou.

"Não sou responsável pela falta de fé que as pessoas têm nas suas instituições", rematou o príncipe Hamzah.

Estas polémicas afirmações do meio-irmão do rei da Jordânia são agora silenciadas com a garantia de que o príncipe está comprometido com a constituição do país. Numa carta assinada e citada pelo palácio, Hamzah admitiu estar à disposição do rei.

"Continuarei comprometido com a constituição do querido Reino Hachemita da Jordânia", revelou Hamzah. As autoridades do país admitiram que o rei pediu ajuda ao tio, o príncipe Hassan, para acalmar os ânimos entre os dois filhos do falecido rei Hussein.

No entanto, a ação contra o príncipe Hamzah representa o primeiro incidente deste tipo envolvendo um membro próximo da família real desde que o rei Abdullah chegou ao trono. A jornalista jordana Rana Sweis revelou à BBC que as tensões dentro da família real já eram visíveis há algum tempo.

Isto porque "o ex-príncipe herdeiro é muito popular. Ele é muito parecido com o pai, o rei Hussein, e é também muito popular entre as tribos locais", afirmou Rana Sweis. As críticas de Hamzah deram voz a um povo cada vez mais descontente com o rumo económico e social do país.

No final de 2020, um relatório da Jordanian Women Solidarity Institute denunciou que cerca de 1,4 milhões de jordanos vivem com um rendimento mensal equivalente a 80 euros, enquanto mais de 70 mil pessoas vivem com menos de 50 euros por mês.

A Jordânia enfrenta grandes desafios para alcançar um desenvolvimento sustentável, que exige a eliminação da fome, a obtenção de saúde e bem-estar, igualdade de género, trabalho, crescimento económico e ainda a redução das desigualdades.

Príncipe Hamzah: o filho preferido do falecido rei Hussein

Hamzah bin Hussein é o filho mais novo do rei Hussein e da sua última mulher, a Rainha Noor. Foi muitas vezes descrito, em público, como o "menino dos olhos" do pai e por isso encarado como o preferido do rei.

Na altura da morte prematura do rei por doença em fevereiro de 1999, Hamzah era muito jovem e inexperiente e Abdullah, o filho mais velho da Princesa Muna, a segunda esposa de Hussein, assumiu o trono. Respeitando os desejos do pai moribundo, Abdullah nomeou Hamzah príncipe herdeiro.

Mas Hamzah não ocupou essa posição por muito tempo. Apenas cinco anos mais tarde, em 2004, Abdullah retirou Hamzah da sucessão. "A oportunidade de se tornar rei escapou-lhe duas vezes: quando o pai morreu prematuramente - era demasiado novo - e quando o irmão retirou o seu título" de herdeiro, disse o analista jordano à AFP.

Devido à semelhança física com o seu progenitor, o príncipe jordano nunca deixou de ser uma figura querida no país, visto como modesto e religioso. É um ex-soldado e piloto, tal como o pai, que foi educado nos melhores colégios de Inglaterra e frequentou a Universidade de Harvard nos EUA.

A prisão domiciliária de Hamzah, acusado de participar em reuniões nas quais o rei foi criticado, é vista como um esforço de Abdullah II para evitar ameaças à sua posição na Jordânia. Segundo o analista que falou com a France-Presse, "o sangue real pode tê-lo salvo da prisão", isto porque na "família real, não se aprisiona um príncipe, deixa-se de lado".

Nos últimos tempos, o príncipe Hamzah tem tido um papel ativo na política do país, através das visitas a anciãos tribais, para discutir o estado da nação, e ainda através das críticas nas redes sociais ao governo.

Silenciar as críticas

Esta terça-feira, o Procurador Geral de Amã proibiu a publicação de informações sobre o príncipe Hamzah. "A interdição da publicação diz respeito a todos os meios áudio, visuais e redes sociais assim como imagens ou vídeos sobre o assunto, sob pena de acusação penal", refere o comunicado do Procurador Hassan al-Abdallat.

No âmbito do processo de suposta sedição contra o monarca já foram detidas dezenas de altos funcionários, entre os quais Cherif Hassan ben Zaid, um antigo diretor do gabinete do rei da Jordânia.

Na segunda-feira, os média locais noticiaram a resolução da crise, com o diário Al Rai a titular "Abortou plano para minar a estabilidade e segurança da Jordânia" e "Enterrada sedição que germinava", enquanto o Al Dustur também se referiu ao "enterro de sedição" e o jornal Al Gad foi mais longe ao anunciar a derrota da "conspiração de delírios".

*com agências

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