Investigação

Príncipe saudita terá usado vírus no WhatsApp para espiar o líder da Amazon

Príncipe saudita terá usado vírus no WhatsApp para espiar o líder da Amazon

É "altamente provável" que o telemóvel de Jeff Bezos, fundador e presidente da multinacional tecnológica Amazon, tenha sido espiado em 2018 por Mohammad bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita.

Espionagem de alto nível ou intriga arriscada? O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed bin Salman, poderá ser responsabilizado "direta e pessoalmente" pela intrusão no telemóvel de Jeff Bezos - titular da maior fortuna do Mundo e patrão da plataforma de distribuição Amazon e do influente diário "The Washington Post" -, para recolher dados para controlar o jornal e vigiar opositores.

O ministro dos Negócios Estrangeiros saudita, Faisal bin Farhan, desmentiu a imputação, mas um relatório preliminar de dois especialistas independentes nomeados pelo Conselho dos Direitos Humanos da ONU aponta para a confirmação de que Salman teria enviado a Bezos, em 1 de maio de 2018, através da aplicação WhatsApp, um ficheiro-espião para sacar dados do telemóvel do multimilionário (129 mil milhões de dólares, segundo a "Forbes").

"A informação que recebemos sugere a possível implicação do príncipe herdeiro na vigilância (à intimidade) de Bezos, num esforço para influenciar, senão silenciar, a cobertura da Arábia Saudita pelo "The Washington Post"", afirmam Agnes Callamard, relatora especial sobre execuções sumárias e extrajudiciais, e David Kaye, relator especial sobre liberdade de expressão.

Mensagens íntimas

Há um ano, um escândalo atingiu Bezos em cheio, quando o tabloide norte-americano "National Enquirer" revelou mensagens em texto e imagens muito íntimas, trocadas entre ele e a pivô de televisão Lauren Sanchez, com quem mantinha uma relação extraconjugal.

Entre os efeitos da bronca, conta-se o fim de 25 anos de casamento e a entrega de 4% das ações da Amazon à ex-cônjuge, MacKenzie Bezos, transformada em mulher mais rica do Mundo (38 mil milhões de dólares).

Na altura, o diário nova-iorquino "The Wall Street Journal" afirmou que as informações tinham sido vendidas ao tabloide por um irmão de Lauren, pela módica quantia de 200 mil dólares. Mas uma perícia pedida por Bezos verificou que o telemóvel tinha sido "infiltrado" por um ficheiro MP4 originário de um número associado ao príncipe Salman. Um mês antes, os dois tinham trocado contactos.

A intriga é mais profunda. Os relatores referem-se também a "uma agenda de vigilância seletiva a presumíveis opositores e pessoas de importância estratégica para as autoridades sauditas", efetuada de forma "continuada, prolongada e direta e com implicação pessoal do príncipe herdeiro", e sugerem uma "investigação imediata" pelos Estados Unidos e por outros países.

Na vigilância, na qual teria colaborado uma empresa israelita especializada em "ciberataques", não é descabida a probabilidade de uma ligação ao assassínio do jornalista saudita Jamal Khashoggi (colunista no "Washington Post"), no consulado de Istambul, em 2 de outubro daquele ano.