Política

Programa da extrema-direita infetado pelo vírus

Programa da extrema-direita infetado pelo vírus

A pandemia de covid-19 que vem assolando a existência do planeta não afeta apenas a saúde e a economia.

A exequibilidade de algumas ideologias também tem sido testada perante o impacto do novo coronavírus e, por agora, a extrema-direita europeia apresenta alguma dificuldade em fazer prevalecer o programa de ação.

Segundo um estudo da fundação francesa Jean-Jaurès, os partidos daquele espectro político "fracassaram na elaboração de respostas coerentes" à crise sanitária, demonizando os governos e encorajando teorias da conspiração, sem poder, contudo, utilizar a imigração como mãe de quase todos os males, incluindo o novo coronavírus.

"A rapidez com que a pandemia se espalhou - sem nenhuma relação com os fluxos migratórios observados, no final de fevereiro, na ilha grega de Lesbos e, depois, noutras partes do país - invalidou totalmente a exploração da questão da imigração como vetor da doença."

A viagem de Jordan Bardella - vice-presidente do partido de extrema-direita francês União Nacional, liderado por Marine Le Pen - e de Jérôme Rivière, eurodeputado da mesma força política, à Grécia, no início de março, teve um eco mínimo, enquanto os neonazis do movimento grego Aurora Dourada têm desempenhado um papel insignificante na tentativa de resolução da crise.

Intramuros, Le Pen acusa o Governo de mentir "absolutamente sobre tudo" o que se relacione com a covid-19, o que acaba por retirar credibilidade à União Nacional no contexto do combate à pandemia.

teorias e autoritarismo

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Previsivelmente, os governos que têm administrado relativamente bem a crise dificultam as críticas, como o alemão. Os radicais da Alternativa para a Alemanha registaram os níveis mais baixos nas intenções de voto desde 2017.

Na vizinha Áustria, o cenário é idêntico. Devido ao bom desempenho do Executivo de Sebastian Kurz face à crise, os extremistas do FPÖ recolhem 10% das preferências, bem longe dos 26% das legislativas de 2017. E as previsões para as eleições regionais de Viena são ainda mais catastróficas.

Teoria recorrente entre alguma extrema-direita europeia é a de que a pandemia surgiu após um vírus ter escapado "acidentalmente" de um laboratório de virologia em Wuhan, cidade chinesa considerada o berço da covid-19. No entanto, nenhum partido consegue validar a tese, limitando-se a utilizá-la como ataque ao respetivo Executivo.

Em Espanha, os neofascistas do Vox conseguem a muito questionável proeza de acusar o Governo socialista de "se aproveitar conscientemente da emergência sanitária para acelerar a imposição de uma forma autoritária de governação". Isto é advogado por um partido que quer vetar a educação sexual nas escolas. A queda nas sondagens não será por acaso, portanto.

Na Suécia, a pandemia foi igualmente nefasta para a extrema-direita, mas de um modo mais irónico. No início de março, os Democratas Suecos tinham todas as sondagens a empurrá-los para a liderança do Governo, penalizando o social-democrata Stefan Löfven.

A covid-19 mudou tudo. Isto porque uma maioria robusta da população apoiou a polémica decisão governamental de não impor o confinamento, opção criticada veementemente pelos radicais. Resultado: o primeiro-ministro nunca foi tão popular.

Estados Unidos - Nos EUA, há grupos de extrema-direita, que, pelo que foi revelado pelo jornal britânico "The Guardian", pretenderiam usar a pandemia de covid-19, que já matou milhares de norte-americanos, para "espalhar o caos", cometer "atos de violência" e causar o colapso para "construir" uma "nova sociedade", baseada na supremacia branca.

Brasil - Curiosamente, no Brasil, alguns setores da extrema-direita têm protestado contra o "autoritarismo" que o presidente, Jair Bolsonaro, tem demonstrado na gestão da pandemia de covid-19. A mais recente manifestação foi anteontem, em São Paulo.

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