Brexit

Protestos na fronteira entre Irlandas marcaram saída

Protestos na fronteira entre Irlandas marcaram saída

Bridgend é um ponto onde a Irlanda do Norte passa a Sul, como dizem por cá, ainda que a fronteira, aqui, seja entre este e oeste. Não se nota em lado nenhum. É um troço às escuras, onde, não fossem as luzes das câmaras dos jornalistas, nem os manifestantes se veriam uns aos outros. São umas mãos cheias e desfraldam uma tarja das "Comunidades fronteiriças contra o Brexit".

Falta pouco para a fatalidade contra a qual se juntaram. E estão ali, em Bridgend e noutros postos fronteiriços entre Derry (Londonderry para os britânicos) e Donegal. Martina Anderson apresenta-se como eurodeputado pelo Sinn Féin, "por mais uma hora".

É a mensagem que leva ao curto protesto - está um frio lancinante, porque a chuva parou por aquela meia hora -, o que as 23 horas desta sexta-feira tiraram aos Norte-irlandeses que votaram pela manutenção na União Europeia foi a representação democrática. E a única coisa que não lhes tiraram foi esta premissa dos acordos de paz de Sexta-feira Santa que puseram fim a três décadas de guerra fratricida em 1998: aquele lugar vai permanecer assim, uma estrada corrida entre dois países que já não são parte do mesmo bloco. "Mas, dito isto, não há um bom Brexit". Porque "ter um pé em Derry e outro em Donegal é ser uma cidadã europeia em Donegal e ser tratada como cidadã europeia de segunda classe em Derry, apesar de ser uma mulher irlandesa, de ser uma cidadã irlandesa, o que faz de mim uma cidadã europeia". E porque prometer negociar com a Europa uma relação em 11 meses, como faz o Governo britânico, é conduzir o Reino Unido a uma saída dura, porque nunca um acordo comercial se negociou em tão curto espaço de tempo.

Ao lado de Martina, Dermot O'Hara, porta-voz do movimento, põe as coisas assim: Londres nem sabe o que é viver na Irlanda, seja ela qual for. "É um dia mau". Resta juntarem-se para fazer lobby para que a igualdade de direitos garantidos no acordo de paz de 1998 sejam legislados, finalmente, em Belfast. Porque do Reino Unido, nem bom vento, nem bom casamento, garante. Num país privado de muito, com uma elevada taxa de desemprego e de falência das infraestruturas, esta noite é a da desilusão. A Europa era a garantia de fundos. Para isso tudo e, sobretudo, para a paz.

A tarja é rapidamente enrolada, os cartazes anti-Brexit e pró-unidade irlandesa guardador e a turba desmobiliza, deixando à fronteira o ar de sempre, o de uma reta enorme numa estrada qualquer no mais absoluto breu. De repente, chove.

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