Tumultos

Protestos violentos no Cazaquistão obrigam a intervenção militar russa

Protestos violentos no Cazaquistão obrigam a intervenção militar russa

Tumultos iniciaram-se no fim de semana e têm-se agravado ao longos dos últimos dias. A paz parece não estar para chegar, mas o país já conta com a proteção dos aliados.

A ocorrência de manifestações é rara neste país autoritário da Ásia Central, mas a subida abrupta dos preços do gás liquefeito, um dos combustíveis mais utilizados nos transportes do país causou o caos. Com um histórico de elevadas taxas de crescimento, o país tem vindo a sofrer desde 2014 com a queda dos preços dos hidrocarbonetos e a crise económica no seu aliado russo, o que levou a uma inflação elevada.

Este cenário, fez com que uma enorme revolta se instaurasse na população que se tem feito ouvir de forma violenta. A polícia tem usado a força para disseminar os manifestantes, através do uso de granadas ensurdecedoras e gás lacrimogéneo.

Até agora já houve registo de dezenas de manifestantes mortos durante ataques a edifícios do Governo. Também 12 elementos das forças de segurança foram violentamente assassinados, contabilizando-se ainda milhares de feridos, número que a imprensa internacional tem dificuldade em precisar, sabendo-se apenas que 400 pessoas se encontram hospitalizadas.

No meio do caos, o Cazaquistão conta agora com a presença militar dos aliados, impulsionada por uma aliança liderada pela Rússia, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) - composta pela Arménia, Bielorrússia, Quirguistão e o Tadjiquistão, além do próprio Cazaquistão -, que enviou hoje um "contingente de manutenção da paz" para o país. O anúncio do envio surgiu poucas horas depois de as autoridades terem informado que milhares de pessoas ficaram feridas nos protestos e motins.

O presidente da OTSC e também primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pachinian, revelou hoje através das redes sociais que esta aliança militar decidiu enviar "uma força coletiva de manutenção da paz". Esta força, adiantou, estará no Cazaquistão por "um período limitado de tempo a fim de estabilizar e normalizar a situação neste país" que foi provocada por "interferência externa".

O apoio dos aliados surge depois do presidente do Cazaquistão, Kasim-Yomart Tokayev, apelar na quarta-feira à noite à OTSC para ajudar a pôr fim à agitação em massa, que descreveu como uma ameaça terrorista. "Devemos considerar este ataque ao Cazaquistão como um ato de agressão", sustentou.

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A intervenção russa está a ser vista como um grande teste para a aliança militar liderada por Moscovo, indica o jornal americano "The Washington Post", já que esta é a primeira vez que a OTSC, fundada após a dissolução da União Soviética, concorda em enviar "forças de paz" para ajudar um país membro. O apoio por parte da Rússia surge num momento sensível, uma vez que nos últimos tempos o país tem apostado no aumento das tropas perto da fronteira com a Ucrânia.

Sinal de tréguas

Segundo testemunhas citadas por agências locais, além dos protestos nas ruas, também o aeroporto de Almaty também foi invadido por manifestantes, montras de cafés e lojas foram partidas, caixas de multibanco assaltadas e vários carros incendiados.

O país está ainda a viver um "apagão nacional na internet", escreveu no Twitter o grupo de monitorização online NetBlocks, enquanto a agência AFP assinalou a incapacidade de jornalistas e cidadãos do país em comunicarem pela internet ou por telemóvel.

Numa tentativa de controlar os manifestantes, o Governo do Cazaquistão enviou um sinal de tréguas, anunciando esta quinta-feira que vai impor, durante seis meses, um limite para os preços dos combustíveis. A medida tem como objetivo "estabilizar a situação socioeconómica", referiu o ministro da Administração Interna do país, citado pelas agências TASS e Ria Novosti.

Também o Governo de Boris Johnson apelou a que os manifestantes tentassem encontrar uma "solução pacífica" para a crise que se instalou no país. "Estamos preocupados com a violência e acompanhamos de perto a evolução da situação. Pedimos que se ponha fim à escalada", disse um porta-voz do primeiro-ministro britânico.

O fantasma de Nazarbayev

Os protestos iniciados no último fim de semana rapidamente se expandiram por todo o país, nos quais foram sendo levantadas bandeiras contra a corrupção, pobreza e desigualdade. O descontentamento da população tem como principal alvo Nursultan Nazarbayev, que governou o Cazaquistão entre 1991 e 2019, mas tem permanecido ativo no poder nos bastidores da política, tendo tido a possibilidade de escolher o seu sucessor, recorda o jornal "The Guardian".

Se em tempos, Nazarbayev foi um líder aclamado no Cazaquistão, agora tornou-se numa espécie de pára-raios para o descontentamento. O antigo líder não fala publicamente desde o início dos protestos e há rumores de que poderá ter abandonado o país no meio do caos. Como prova do descontentamento, vários grupos de manifestantes acabaram por fazer cair estátuas do ex-presidente, destruindo a imagem do "líder da nação", um culto à personalidade que foi sendo construído ao longo dos anos.

Agora, além de quererem ver uma descida nos preços, a população luta pela aplicação de reformas em vários setores e pedem melhores padrões de vida.

Ainda não está claro de que forma a agitação no Cazaquistão irá evoluir e que papel Nazarbayev irá desempenhar, mas é certo que os acontecimentos dos últimos dias irão alterar o legado histórico que o antigo presidente imaginou que deixaria.

Desde que se tornou independente, há três décadas, o Cazaquistão nunca teve eleições consideradas livres e justas pelos observadores internacionais.

O poder do petróleo

Em 2020, o petróleo respondeu por 21% do Produto Interno Bruto(PIB) do país. O protesto que desencadeou a atual crise ocorreu na cidade petrolífera ocidental de Zhanaozen, onde os ressentimentos há muito que se manifestam devido à sensação de que as riquezas energéticas não têm sido distribuídas de forma justa.

População mista

Oficialmente, o país conta com 130 nacionalidades, sendo que muitas das populações se fixaram no tempo da União Soviética, através da presença de presos políticos ou de grandes comunidades alemãs, gregas, polacas ou turco-georgianas.

Bitcoin

A crise política no Cazaquistão teve implicações imediatas na produção de bitcoin. Na tentativa de conter as manifestações, o Governo cortou a internet, estimando-se que essa falha tenha levado à perda de uma alta percentagem do poder de mineração a nível global. No ano passado, o país tornou-se no segundo maior centro de mineração, sendo só ultrapassado pelos EUA. Em agosto de 2021, o Cazaquistão respondia por 18% do "hashrate" global, jargão criptográfico para a capacidade de computação usada por computadores conectados à rede bitcoin. Uma queda no "hashrate" não é favorável ao preço da moeda digital.

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