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Quando a saúde reprodutiva não é para todos: vasectomias disparam com a proibição do aborto

Quando a saúde reprodutiva não é para todos: vasectomias disparam com a proibição do aborto

A reversão da decisão que garantia o direito ao aborto nos EUA e a ameaça de outros retrocessos está a fazer disparar o número de vasectomias no país.

A decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos de revogar o direito constitucional à interrupção voluntária da gravidez, que gerou protestos e batalhas judiciais por todo o país, foi o empurrão que Shawn precisava para avançar para um procedimento sobre o qual há muito ponderava.

Se o engenheiro de software de 32 anos já pensava em fazer uma vasectomia - dado que nem ele nem a companheira perspetivavam a vontade de terem ou virem a querer ter filhos -, os "90% de certeza" que tinha aumentaram para 100 com o recente retrocesso judicial e com a posterior posição do juiz Clarence Thomas, que defendeu que o Supremo deveria ainda rever o uso de contracetivos (além de outros precedentes legais, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo). Agendou a cirurgia com um urologista do Estado onde vive, Florida, que já efetuou o procedimento dezenas de milhares de vezes e que é conhecido na região como "o rei da vasectomia". Seis dias depois da intervenção, o parecer é positivo: "Já passei por procedimentos dentários piores."

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Enquanto milhões de mulheres norte-americanas são destituídas do direito de assumirem o controlo da própria saúde reprodutiva, Shawn é só um dos muitos homens a poder fazê-lo. E são mesmo muitos: vários urologistas garantiram ao "The Washington Post" que as marcações dispararam entre os 300 e os 400% desde a decisão do Supremo, em maio. São homens na casa dos 30 e sem filhos nem desejo de os ter que mais optam pela vasectomia. As percentagens estão em linha com os dados recolhidos pelo "Innerbody Research" (o maior guia online de saúde e bem-estar dos EUA), que mostraram um aumento diário de 850% das pesquisas na Internet relacionadas com vasectomias. Curiosamente, a maior fatia vem do Texas, onde a lei de 1925 que proibia o aborto foi restaurada no início deste mês.

"Há definitivamente um aumento de homens a fazer vasectomias. A decisão do Supremo Tribunal gerou muita conversa sobre contraceção em geral, além de ter aumentado a consciencialização sobre a vasectomia como um método de contraceção eficaz, de baixo custo, seguro e permanente [embora possa ser desfeita] que dá aos homens controlo sobre sua procriação", explicou Alex Shteynshlyuger, urologista de Nova Iorque, citado pelo "The Guardian". Numa semana normal, o especialista fazia em média 15 consultas relacionadas com o procedimento. Na última semana de junho, fez 72.

Antes percebidas como drásticas e irreversíveis, as cirurgias de vasectomia são atualmente simples, rotineiras e relativamente indolores, destacam vários especialistas norte-americanos: um pequeno orifício é perfurado no escroto, permitindo o acesso ao ducto deferente (os canais que transmitem o esperma dos testículos para a uretra) e o procedimento é concluído em cerca de meia hora. Não é impossível serem revertidas, embora as operações de reversão de vasectomia sejam caras (custam até 10 mil dólares nos EUA, cerca de 9800 euros) e as taxas de sucesso diminuam substancialmente com o tempo desde que a vasectomia decorre, daí que os médicos notem que a decisão de comprometer a capacidade reprodutiva de forma semipermanente não deve ser tomada de ânimo leve.

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