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Questão religiosa parece desligada de acto político

Questão religiosa parece desligada de acto político

Alguma vez houve fundamentalismo cristão? Claro que sim, e nem precisamos de despejar aqui exemplos. Todavia, apesar de a referência religiosa ter surgido, nada nos atentados de Oslo leva a crer que haja, no Ocidente, um contrafenómeno de violência pela fé.

Só em tese Armando Marques Guedes admite que um fenómeno de religiosidade retorcida, no mundo cristão, gere acções como as que levaram, anteontem, à morte de 92 pessoas: "A possibilidade existe". Mas não neste caso. E porque há coincidências assim, o professor associado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, especialista em relações internacionais e com obra publicada sobre terrorismo, é casado com uma cidadã norueguesa, está em Oslo e garante: "Neste caso, não há qualquer indicação que leve a pensar nisso".

Diz o académico que, ainda por cima, não há por ali qualquer tradição de partidos políticos de fundamentação religiosa, "nem sequer na linha das democracias cristãs europeias: nunca houve na Noruega um partido religioso, eficaz ou activo". Depois, aponta contradições com essa tese, pois atacou um partido ("na linha do nosso PS, ou um pouco à direita") que está ligado ao envolvimento da Noruega em forças da OTAN, designadamente as que combatem na Líbia, e não se virou contra aquilo a que se chama o "gueto", na zona leste da capital, onde estão concentrados os imigrantes muçulmanos, designadamente paquistaneses.

"Nós ouvimos a explosão", diz Armando Marques Guedes, que num primeiro momento nem pensou tratar-se de um atentado. Depois, à medida que as notícias eram difundidas (e foi desde logo ventilada a hipótese de atentado islamista), surgiu o receio de que a sociedade norueguesa se enfurecesse contra os imigrantes muçulmanos ("quando aqui chegámos, há dias, fomos a um centro comercial, que está com saldos, e havia entre os clientes uma grande maioria de muçulmanos, viam-se muitas mulheres de véu", diz, para dimensionar o peso destas comunidades). Depois disso, o fundamentalismo islâmico foi descartado e cresceu muito a dimensão política: "Há agora, na sociedade norueguesa, uma enorme simpatia pelos trabalhistas, e a direita não terá qualquer hipótese nas próximas eleições, em Outubro".

Membro da OTAN desde 1949, a Noruega proclamou-se neutral nas duas guerras mundiais. Porém, de 1940 a 1945 esteve ocupada pela Alemanha nazi, e a extrema direita teve sempre alguma importância por aquelas bandas. Daí que ganhem peso as ligações do suspeito ao Partido do Progresso (populista), cujo líder, Siv Jensen, teve ontem de pôr água na fervura: "Entristece-me ainda mais saber que esta pessoa já esteve connosco".

Fundamentalismo cristão? Não parece. José Pedro Teixeira Fernandes, autor do livro "Islamismo e Multiculturalismo" (Almedina), compara este caso "isolado" ao atentado de Oklahoma City e insere-o "numa lógica mais de extremismo político, pois temos um atacante radicalizado, mas contra o sistema político do seu próprio país".

Diz este investigador que "na Europa não há qualquer tradição" que permita falar em fundamentalismo religioso, embora note que, "em abstracto, nunca podemos excluir essa possibilidade. Só a ponderação e o melhor conhecimento do sucedido permitirá raciocínios mais conclusivos. Há demasiados factores a ter em causa, dos efeitos perversos das sociedades de abundância, como a norueguesa, à situação de crise globalizada em que vivemos.