Opinião

O Brexit visto a partir da Europa

O Brexit visto a partir da Europa

Ana Simundza: Os europeus devem confiar na força dos alicerces da UE

Sem sombra de dúvida, o Brexit é um duro golpe no projeto europeu. O golpe é particularmente forte porque chega num momento de relativa fraqueza da União, causada por vários anos de crise económica, de confiança, de refugidos e de segurança.

Ao perder o Reino Unido, a União sentirá um impacto negativo quer na posição que ocupa na economia mundial mas também na sua segurança e capacidade para conduzir uma relevante e competente política externa. Nestas circunstâncias, o Brexit colocará um fardo adicional ao funcionamento das instituições comunitárias, que já estão a braços com outros desafios existenciais e a sua própria crise de identidade.

O pensamento de Juncker de uma "Comissão mais política" será desacreditado e a Comissão será pressionada para reverter para ser "menos Europa", assumindo um papel puramente administrativo.
Contudo, o que mais dano pode causar é o hipotético "efeito de dominó", com outros Estados membros a convocar referendos. Horas depois do voto britânico, líderes de partidos eurocéticos na França e Holanda apelaram a um voto nos respetivos países.

Numa atmosfera de crescente nacionalismo, xenofobia e neofascismo presente em muitos países europeus - na qual partidos populistas baseiam a sua cultura do medo e euroceticismo - não será difícil imaginar mais "...-exits" nos próximos meses ou anos. Seria o sinal definitivo da morta da União tal como existe.

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É um cenário particularmente difícil assistir a partir da Croácia, um país que há apenas três anos se tornou o mais recente Estado membro da UE. A braços com duas décadas de recuperação pós-guerra e de transição política e económica, a possibilidade de aderir à União Europeia era uma força motriz por detrás dos seus esforços de reforma.

Na Croácia, a perceção sobre a União Europeia é a de um projeto de paz, unidade e valores comuns. É um sentimento partilhado pela maior parte dos países do Sudeste europeu que ainda aguardam pela adesão.

O Brexit não deveria significar o fim dessa aspiração. Neste tempo de grande desafio para o projeto europeu, devemos confiar na força das suas nobres fundações. Como comentou Donald Tusk ao saber do resultado do voto britânico: "A União Europeia não é um projeto só para ventos favoráveis".

Consultora do Banco para a Reconstrução e Desenvolvimento da Croácia

Martin Rusek: A Europa ficará mais fraca e instável e menos dinâmica

Nenhum cidadão europeu (e eu considero-me europeu, além de checo) alguma vez podia ter antecipado o Brexit. Eu tinha consciência da existência dos dois campos, de forças quase equivalentes, dentro do Reino Unido mas, até à manhã desta sexta-feira, esperava que os ânimos e os argumentos falaciosos não persistissem. Estava errado. Sabemos agora que os jovens britânicos foram derrotados pelos pais e avós, que acreditaram que a complexidade da União Europeia lhes trazia mais prejuízo do que benefício.

O que se segue? Ninguém realmente sabe. É certo que a Europa ficará mais fraca, mais instável do que até agora e menos dinâmica, à medida que se sobrecarrega com problemas internos. Quem está satisfeito com a situação é o russo Vladimir Putin, que conseguirá muito mais facilmente desestabilizar a União Europeia. A Europa demorará ainda tempo a encontrar soluções para problemas iminentes, como as migrações e a luta contra o terrorismo.

Agora, no Reino Unido, a queda do valor da libra e a saída do primeiro-ministro de um navio que ajudou a afundar, o futuro está em aberto. Os britânicos podem acordar do choque do Brexit e, nas próximas eleições, votar em candidatos pró-europeus que ajudem a reduzir os danos. Ou podem seguir a via isolacionista e, provavelmente, arriscar um referendo na Escócia e na Irlanda do Norte, dois territórios insatisfeitos com o facto de serem empurrados para fora da União Europeia por alguém que nem sequer respeitam.

Em todo o caso, o Brexit vai, em definitivo, mudar a política na União Europeia. Alguns temem que os líderes atuais tenham agora campo livre para a tornar mais federal. Outros acreditam que a cimeira de terça-feira marcará um ponto de viragem em direção a uma união menos regulada e, portanto, mais dinâmica e respeitada. Espero que siga a segunda via. Ou temo por um desfecho amargo ainda durante o nosso tempo de vida.

Czech TV

Sitkei Levente: "Reformar a UE para travar políticas radicais"

O Brexit foi uma "chamada de despertar" para a União Europeia e com toda a razão de ser. A atual liderança, os responsáveis que dirigem a União dos 28 países e o estilo de Bruxelas falharam - e o insucesso resultou nesta punição por parte dos britânicos.

A manobra política de David Cameron, que tentou fortalecer e unir o seu país e a União Europeia, também falharam e o Reino Unido pode, até, ser prejudicado em resultado do abandono do projeto europeu.

A União Europeia deve ser reformada, para ser benéfica para todos os seus membros, e não incentivar as numerosas formações políticas radicais surgidas, quase exclusivamente, devido à arrogância e negligência de Bruxelas.

Não sabemos para onde navegarão os britânicos, agora, nem para onde se dirige a frota europeia, mas esta nossa frota vai sentir a falta do seu navio.

Editor de Internacional do diário húngaro Magyar Idõk

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