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Repórteres Sem Fronteiras dizem ser "absurda" denúncia contra jornalista Glenn Greenwald

Repórteres Sem Fronteiras dizem ser "absurda" denúncia contra jornalista Glenn Greenwald

A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) considera "absurda" a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) do Brasil contra o jornalista Glenn Greenwald, responsável pela investigação jornalística conhecida como 'Vaza Jato', num inquérito sobre invasão de telemóveis de autoridades.

"Entendemos que a acusação apresentada [esta terça-feira] pelo MPF contra o jornalista Glenn Greenwald é absurda", disse Artur Romeu, do escritório da RSF para a América Latina no Rio de Janeiro, em declarações à Lusa através de email.

"A denúncia afirma que houve 'clara conduta de participação auxiliar no delito', com base em diálogos que apontam para a preocupação do jornalista em proteger o anonimato da fonte. A afirmação demonstra um profundo desconhecimento sobre o que é o jornalismo investigativo. E pior, é usada como pretexto para retaliar e intimidar o jornalismo crítico que [atente contra] os interesses daqueles que ocupam espaços de poder", considera a organização não-governamental (ONG) de defesa dos jornalistas e da liberdade de expressão e de informação.

"O impacto da denúncia vai muito além de Glenn Greenwald e deve ser vista com grande preocupação por todos os jornalistas que atuam no país", considera ainda a Repórteres Sem Fronteiras.

A RSF diz estar a acompanhar o caso do jornalista Glenn Greenwald há quase um ano, "quando começou a receber ataques por conta da série de reportagens conhecida como 'Vaza Jato'" e "entende que a acusação representa mais uma grave ameaça à liberdade de imprensa no país".

A organização conclui as declarações enviadas à Lusa reiterando o seu "pleno apoio a Glenn Greenwald e ao jornalismo investigativo no Brasil".

O MPF do Brasil denunciou esta terça-feira sete pessoas, incluindo Glenn Greenwald, responsável pela investigação jornalística conhecida como 'Vaza Jato', por crimes relacionados com a invasão de telemóveis de autoridades brasileiras e prática de organização criminosa e branqueamento de capitais, bem como as intercetações telefónicas.

Greenwald foi denunciado, mas não investigado ou indiciado. Para o MPF, ficou comprovado que o jornalista norte-americano, cofundador do The Intercpt Brasil - 'site' que, em junho de 2019, começou a divulgar reportagens que colocam em causa a imparcialidade da Lava Jato, maior operação contra a corrupção no país, e de Sergio Moro, hoje ministro da Justiça -- "auxiliou, incentivou e orientou" um grupo de piratas informáticos "durante o período das invasões".

A denúncia foi assinada pelo procurador Wellington Divino de Oliveira, que alegou ter encontrado indícios de que o grupo formou uma organização que executou crimes cibernéticos por meio de fraudes bancárias, invasão de dispositivos informáticos e branqueamento de capitais.

O órgão de Justiça brasileiro justificou que Greenwald não era alvo das investigações, mas, durante a análise de um computador portátil apreendido, foi encontrado um áudio de um diálogo entre ele e um dos suspeitos, que comprovaria o seu envolvimento no crime.

A conversa apreendida terá sido realizada, segundo o MPF, logo após a divulgação, pela imprensa brasileira, da invasão do telemóvel do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

Glenn Greenwald classificou a denúncia do MPF como uma "retaliação do Governo de Bolsonaro" e um "grave ataque à imprensa".

"O Governo de Bolsonaro [Presidente do Brasil] e o movimento que o apoia deixaram bem claro que não acreditam na liberdade de imprensa (...). Há menos de dois meses, a Polícia Federal, examinando todas as mesmas evidências citadas pelo Ministério Público, declarou explicitamente que não apenas nunca cometi nenhum crime, como exerci extrema cautela e profissionalismo como jornalista", indicou Greenwald em comunicado divulgado na terça-feira.

"A denúncia (...) é uma tentativa óbvia de atacar a imprensa livre, em retaliação pelas revelações que relatamos sobre o ministro [da Justiça, Sérgio] Moro e o Governo [liderado pelo Presidente, Jair] Bolsonaro. É também um ataque ao Supremo brasileiro, que determinou em julho que tenho o direito de ter a minha liberdade de imprensa protegida face a ataques de retaliação do ministro Moro", afirmou ainda Greenwald, acrescentando que não se intimidará com "tentativas tirânicas de silenciar jornalistas".

Várias ONG internacionais condenaram na terça-feira a denúncia do MPF brasileiro, classificando-a de "ameaça à democracia".

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