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Revolução ucraniana cravada de dúvidas

Revolução ucraniana cravada de dúvidas

A capital ucraniana adormeceu, este sábado, à espera. Sem saber exatamente de quê. O emocionado apelo à manutenção dos protestos feito por Yulia Timoshenko não dissipou as dúvidas que emergem de uma revolução de fim incógnito.

Por muitas vivas que continuem a ser dadas à Ucrânia livre e aos seus heróis "que nunca morrem", no centro de todos os protestos ninguém sabe onde tudo vai acabar e a especulação tem aqui terreno fértil. Durante a tarde, a contestação popular deixou, pela primeira vez em três meses, o exterior da praça que simboliza esta revolução e moveu-se em massa para o parlamento onde ela acabaria por materializar-se.

O mar de gente teve que cruzar a segunda barricada em direção ao estádio do Dínamo de Kiev. Um muro agora aparentemente intransponível onde um carro amassado e abandonado exibia enigmaticamente duas bandeiras de dimensão generosa: uma azul e amarela, da Ucrânia, e outra de Portugal. "Só conheço a minha [a bandeira ucraniana], a outra não faço ideia qual seja nem quem a colocou aqui", disse Svitlana Salamatona, uma das voluntárias que preparava minissandes que eram oferecidas a quem cruzava a barreira de pneus e sacos de areia.

Mais acima, passada a derradeira barricada de proteção da praça Maidan, centenas de pessoas impacientes rodearam durante todo o dia o edifício da assembleia onde se coordenavam as últimas ações contra o presidente Viktor Ianukovich.

O átrio gradeado do parlamento rapidamente se transformou numa espécie de quartel-general dos revoltosos. Na parte de fora das grades, a multidão tirava fotos, ouvia rádio e gritava "glória à Ucrânia, glória aos heróis".

No interior, milicianos com ar cansado e sujos do negro das fogueiras permaneciam em formação com os escudos improvisados e armas artesanais. Outros empunhavam martelos e machados. Entravam, descansavam e rapidamente eram distribuídos por outras zonas de Kiev. Já não havia dúvidas. Os manifestantes passaram a controlar amplas áreas para além da praça da Independência. E sem sinais de polícia ou da tropa.

Nos acessos ao Parlamento, dois camiões do exército permaneciam imóveis. Foram queimados pelos opositores ao regime e durante a tarde deste sábado serviram de cenário a fotos de família que acabariam no Facebook. "Poder andar aqui e perceber que que eles já cá não estão é uma alegria para mim e para o meu filho", afirmou Anatoli Kovalenko.

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Apesar do ambiente descontraído, os manifestantes organizados em milícias não facilitavam na segurança. Todos os carros eram passados a pente fino. Descobriram polícias sem uniforme, mas armados, e evitaram potenciais linchamentos. Dois membros do partido de Ianukovich tentaram cruzar a zona "libertada" dentro de uma ambulância. Foram descobertos, sovados e expulsos da zona. Uns aplaudiram. Outros queriam mais. Há sede de vingança no ar de Kiev.

Tanya Loboda confessa que lhe custa ver tanta violência. "Não podemos combater com as armas que contestamos". É por isso que, em vez de armas artesanais, trouxe um ramo de cravos. "Trouxe-os para oferecer e para colocar junto aos lugares onde morreram os nossos heróis". Há quem traga tulipas. Ou rosas. À noite, antes do discurso de Timochenko, milhares de ucranianos rumaram à praça da Independência para mais uma homenagem às vítimas da carnificina policial. Voltou o choro à medida que os caixões desfilavam.

Desta vez, não pareciam só lágrimas de revolta. O futuro que não se conhece também dói.

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