Espanha

Sánchez depende da direita ou dos independentistas

Sánchez depende da direita ou dos independentistas

O resultado de Sánchez nas eleições foi insuficiente para formar governo. Foi rejeitada uma "grande aliança" com o PP, mas o PSOE precisa da esquerda e dos nacionalistas. Ciudadanos perde 47 deputados mas ainda conta.

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) promete um "governo progressista", para não haver terceiras eleições neste ano, mas a margem de manobra é estreita: ou guina à direita com uma aliança com o Partido Popular (PP); ou recolhe o apoio da esquerda e dos partidos nacionalistas e mesmo independentistas.

Recordemos: o PSOE venceu as eleições de domingo (28%), mas perdeu três eleitos (de 123, caiu para 120), ficando ainda mais longe da maioria absoluta (176) para que o seu secretário-geral, Pedro Sánchez, passe na investidura na primeira votação no Congresso dos Deputados. Tão-pouco serão suficientes na bem provável segunda ronda, já que os votos favoráveis terão sempre de ser superiores aos contrários.

Seria muito confortável uma aliança com o Partido Popular (PP), que fez eleger 88 deputados, somando os dois 208, mas o POSE põe-na de parte, segundo avançou o secretário para a organização, José Luís Ábalos, no final da reunião da executiva socialista, esta segunda-feira.

A situação política resultante das eleições - precipitadas por Sánchez, recorde-se, para escapar a uma aliança de esquerda e tentar a sorte de uma maioria - é "complexa" e impõe uma "política muito dinâmica". Em que termos?

"O nosso compromisso é o de que não haja terceiras eleições, mas um governo progressista - e isso não é uma coligação com a direita - o mais cedo possível", disse aos jornalistas.

Segundo Ábalos, o PSOE rejeita a hipótese de uma "grande coligação" com o PP. Nem o líder popular a quer, a avaliar pelas palavras de Pablo Casado, no domingo à noite, ao prometer um "governo popular em breve".

Ao que transparece e a imprensa espanhola enfatiza, o PSOE, cujo líder começou ontem a encontrar-se com os chefes de outros partidos (à exceção do Vox, de extrema-direita, que duplicou para 52 o número de deputados e ascendeu a terceira força parlamentar) para discutir as possibilidades de formação de governo, conta com o Ciudadanos (Cs) na sua equação.

Resta ver como a nova direção do Cs, provavelmente sob a liderança de Inés Arrimadas, com a renúncia, ontem, de Albert Rivera, vai posicionar-se, depois do rombo eleitoral, ao cair de 57 para dez deputados, e com a discussão interna sobre as consequências da deriva direitista a necessária reabilitação do ideário "liberal".

Na geometria "progressista", o PSOE espera contar - sem que se saiba com que plataforma - com o apoio da coligação Unidas Podemos (UP), apesar da descida para 35 eleitos, e da nova força parlamentar Mais País (MP, produto de uma cisão no Podemos), embora a soma de votos se fique pelos 158.

O bloco da moção de censura

Àqueles apoios, o PSOE acrescentaria os partidos regionalistas não soberanistas, isto é, não independentistas, de entre os quais se destaca o Partido Nacionalista Basco (PNV). A adição subiria para 171 deputados, ainda assim insuficientes para garantir a investidura em segunda votação. A menos que o Cs, ou a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), com 13 deputados, se abstenham.

O ERC, força catalã mais votada, faz parte do bloco que ajudou Pedro Sánchez a ascender ao Governo. Se juntarmos os eleitos das bancadas da esquerda, dos nacionalistas bascos e dos independentistas catalães que, em 1 de junho do ano passado, votaram a moção de censura a Mariano Rajoy (PP), asseguraria 191 deputados.

Sánchez, porém, não quer o apoio dos independentistas (na campanha, ameaçou mesmo voltar a criminalizar o referendo ilegal), ainda que estes estejam fazer valer o seu peso específico, mais tarde ou mais cedo. "O diálogo e uma solução democrática, ou mais direita", desafiou-o ontem à tarde a porta-voz do ERC, Marta Vilalta.

Pela manhã, o presidente da Generalitat da Catalunha, Quim Torra, fizera-lhe a sexta chamada telefónica não atendida e deixara uma advertência pública: "Está na hora de o presidente Sánchez, ou aquele que aspire a ser presidente, se sentar a falar. É a hora de não se esconder e de falar de soluções reais par o conflito político".