Turquia

Santa Sofia perde estatuto de museu para ser mesquita

Santa Sofia perde estatuto de museu para ser mesquita

Erdogan anunciou o rápido regresso dos cultos àquela que foi construída como basílica bizantina no séc. VI, passou a templo islâmico no séc. XV e foi secularizado em 1934.

"Sagrada sabedoria". Era início do séc. XX e Mustafá Kemal Ataturk sonhava uma Turquia de grandeza democrática e secular. Imaginemo-lo sentado na enormíssima praça de Istambul que fica entre os dois parêntesis mais belos da cidade, a grandiosa Mesquita Azul e a pureza arquitetónica que é a Santa Sofia. É uma mesquita quando a olha.

Laico, vê para lá disso. Vê a catedral bizantina que foi durante sete séculos, antes de ser convertida ao islamismo para outros cinco. E sonha-a como o símbolo dessa nova Turquia, uma nação feita da mistura cultural que foi a sua história, a Constantinopla bizantina, a Istambul otomana, uma cidade que cavalga o Bósforo com um pé na Europa e o outro na Ásia.

E determina-a museu em 24 de novembro de 1934. Para o Mundo e para os gatos que nela deambulam, alheios às proibições de tocar em arte milenar. Foi esse milagre que o Conselho de Estado turco - a mais alta instância administrativa - ontem deitou por terra. Retirou-lhe o estatuto de museu. E colocou um sorriso na face do presidente ismalo-nacionalista turco, Recep Tayyip Erdogan, que tem gasto os quase 20 anos que leva no poder a diminuir a herança kemalista.

Sagrada sabedoria

A Ayasofya em turco, Hagia Sophia em grego, Santa Sofia em português, Sagrada Sabedoria no seu significado, património mundial, volta a ser a mesquita que foi entre 1453 e 1934, como reclamava uma associação islamista associada ao Governo de Erdogan. Que foi o próprio a anunciar, de imediato, o regresso do culto ao templo, para somar mais uma às 83 mil mesquitas turcas, 3000 delas em Istambul.

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A forma como se processará a adaptação é o mistério que faz temer os críticos: o passado cristão da basílica deixou nas suas paredes frescos e mosaicos com figuras humanas, que não existem no Islão. A garantia é a de que serão preservadas e de que o templo continuará aberto aos visitantes (são quatro milhões por ano, ou seja, muito dinheiro) fora das horas de oração, como sucede com a vizinha Mesquita Azul, ou Mesquita de Sultan Ahmet. Mas a verdade é que há outras "sabedorias" na história de restaurações da era Erdogan, como recordava há tempos um grupo de académicos de todo o Mundo. A turca Ebru Erdem Akçay tem até um termo: "restruição".

O alto tribunal turco entendeu que a designação da basílica como mesquita no alvor do Império Otomano, nas atas de propriedade da Fundação Mehmet Fatih, não podia ter sido alterado, como o foi pela decisão de Ataturk, que os autores da ação até argumentaram ter assinaturas falsas e que, segundo Erdogan, foi "um erro grosseiro". O "sultão" Erdogan (alterou a Constituição para ter poder quase absoluto) em busca do império perdido.

Avaliações legais à parte, em causa está um monumento aberto a todos os credos que passa a restringir-se ao islão, na senda da pressão dos islamistas mais rigorosos que têm em Erdogan o seu maior tribuno. A queda de popularidade do presidente - cujo partido até a câmara de Istambul perdeu - não será alheia a esta nova campanha pela mesquita, depois de evocações anteriores terem sido postas de parte: a necessidade de ampliar a base de apoio conservadora impõe-se. Com a oposição calada para não dar trunfos a Erdogan ao polarizar a questão, resta a Santa Sofia a voz do Mundo e o silêncio dos gatos.

Classificação pode estar em risco

A Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) recorda que a classificação do templo como património mundial envolve "compromissos e obrigações legais", entre eles não alterar o "valor universal excecional" da obra sem notificar a UNESCO. E recorda o exemplo que a Santa Sofia foi "para uma família inteira de igrejas e mesquitas" e como influenciou "a arte oriental e ocidental".

Desalento grego
"O nacionalismo do presidente Erdogan faz o seu país regredir seis séculos", reagiu a ministra da Cultura da Grécia (país de maioria ortodoxa particularmente atenta ao património bizantino na Turquia), Lina Mendoni, denunciando uma "provocação para o mundo civilizado".

Lamento russo
Outro país ortodoxo, a Rússia, pela voz do seu patriarcado, lamentou que a Turquia tenha passado por cima da "preocupação de milhões de cristãos".

Resposta turca
"Dizem-nos para não nos atrevermos a transformar a AyaSofya em mesquita. Quem governa a Turquia, nós ou vocês?", perguntara Erdogan há dias, quando a Grécia condenou a ideia.

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