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Sara Winter, a ex-feminista que "castrou" Bolsonaro e agora lidera grupo que o apoia

Sara Winter, a ex-feminista que "castrou" Bolsonaro e agora lidera grupo que o apoia

Chama-se Sara Fernanda Giromini, mas foi como Sara Winter que saltou para a ribalta no Brasil. Antes, pela causa feminista, como uma das fundadoras da versão brasileira do grupo Femen. Há uns anos, chegou até a "castrar" um boneco que representava o então deputado federal Jair Bolsonaro. Agora, no outro extremo político, como líder dos "300 do Brasil", que se intitulam "a primeira militância organizada de direita" no país. E o homem que antes parecia odiar passou a ser o seu grande ídolo.

De que Sara é uma mulher de extremos não restam dúvidas. Ela que já quis "exterminar todo o tipo de violência contra a mulher" com a mesma convicção com que agora defende o "extermínio da esquerda". A mesma mulher que saía à rua em "topless", com as palavras "Fora Bolsonaro" escritas no peito e as axilas pintadas de cor-de-rosa, em protestos pela igualdade de género, e que agora se exibe com pistolas nas mãos e camisolas de apoio ao presidente brasileiro e com mensagens conservadoras como "Pro Life, Pro God, Pro Gun", ou seja, a favor da vida, de Deus e das armas.

É a mesma mulher que chegou a defender a legalização do aborto e que hoje está nas bocas do Mundo por ter divulgado dados de uma menina de dez anos que abortou após violação, o que levou o Ministério Público brasileiro a pedir-lhe uma indemnização de 1,32 milhões de reais (200 mil euros).

Tais extremismos passam muitas vezes os limites da lei e a "Sara feminista" nunca teve uma boa relação com as forças de segurança, apesar de a "Sara conservadora" apoiar a intervenção militar, que define como a "intervenção do povo". Tanto uma como a outra já foram presas. A primeira foi detida por diversas ocasiões nos últimos anos, enquanto protestava pelos direitos das mulheres e pelo fim da desigualdade social. A segunda foi presa em junho, no âmbito de uma investigação sobre financiamento de manifestações antidemocráticas, nas quais o grupo "300 do Brasil" participa ativamente. Com a particularidade de uma e outra serem exatamente a mesma pessoa. Mas o que motivou essa radical mudança?

A tatuagem nazi que se transformou numa flor

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Sara Giromini é natural de São Carlos, no estado de São Paulo, onde nasceu em junho de 1992 (28 anos). Na adolescência, passou por "más experiências" de violência familiar e sexual, que a própria relatou nas redes sociais. Aos 17 anos, trabalhou como prostituta durante dez meses. Contou também ter sofrido agressões por parte do ex-marido. A família afastou-se. Sara não fala com o pai nem com os dois irmãos mais velhos e vê com pouca frequência o filho, de quatro anos, que vive com a avó, a única familiar com quem mantém contacto.

Por tudo isto, começou a utilizar as redes sociais para defender ideias de Esquerda, como a construção social dos géneros, o feminismo e a legalização do aborto. Decidiu dedicar-se ao ativismo, através do grupo ucraniano Femen, para "exterminar todo o tipo de violência contra a mulher". Aos 19 anos, viajou para Kiev para conhecer uma das líderes, Inna Shevchenko, e integrar-se no movimento. Voltou ao seu país em 2012, para ser uma das fundadoras da filial brasileira do grupo.

No entanto, a missão de Sara Winter em nome do feminismo não durou muito tempo. Durante um protesto a favor do parto em casa, em São Paulo, a ativista exibiu-se seminua e revelou uma tatuagem da cruz de ferro, principal condecoração militar do regime nazi, no peito esquerdo. Foi então acusada de ser simpatizante do movimento fascista. Além da tatuagem, seguia no Facebook páginas como a de Plínio Salgado (líder do movimento integralista brasileiro), do movimento "skinhead" e de personalidades conservadoras, como Ronald Reagan.

Questionada pelos seguidores nas redes sociais, Sara divulgou uma nota na página do Femen Brazil afirmando que nunca "andou ao lado de carecas e nazis". Confessou, porém, ter mantido relações pela Internet com pessoas do movimento entre os 15 e os 17 anos, mas que se tratou apenas de um "erro do passado" e que "todo mundo faz merda". Mais tarde, a brasileira acabou por tapar a cruz de ferro com outra tatuagem, de uma flor.

O pseudónimo "Sara Winter" também foi questionado pelos seguidores nas redes, que afirmaram tratar-se de uma referência a Sarah Winter, militante nazifascista britânica durante a Segunda Guerra Mundial. Em sua defesa, Sara garantiu que não era mais do que uma "infeliz coincidência".

A doença do feminismo e a cura cristã

Em 2013, menos de um ano depois da inauguração, a filial brasileira do grupo Femen foi fechada e Sara foi acusada de centralização, autoritarismo e simpatia pelo nazismo. Em resposta, a ativista publicou vídeos no YouTube a pedir perdão aos cristãos por ter feito parte do Femen e publicou um livro intitulado "Vadia não! Sete vezes que fui traída pelo feminismo", em que narra as experiências negativas que teve no movimento. Desiludida com o feminismo, Sara chegou mesmo a defini-lo como uma "doença", da qual diz já estar "curada".

A partir daí, começou a abrir caminho à direita, aproximando-se de personalidades mais conservadoras como o deputado federal Marco Feliciano e Jair Bolsonaro, na altura também deputado. Em 2018, candidatou-se a deputada federal no Rio de Janeiro pelo partido de centro-direita Democratas, mas não foi eleita. Entre abril e outubro do ano passado, já sob o governo de Bolsonaro, atuou como coordenadora-geral de Atenção Integral à Gestante e à Maternidade do Ministério da Família, Mulheres, e Direitos Humanos, por indicação da ministra Damares Alves, com quem partilha bandeiras contra o feminismo e o aborto.

Agora, Sara Winter aposta na radicalização através das redes sociais, dizendo andar escoltada por seguranças armados e defendendo que membros do Supremo Tribunal Federal "sejam removidos pela lei ou pelas mãos do povo" e o "extermínio da esquerda". Em entrevista à BBC Brasil, afirmou que o seu foco passou a estar concentrado na convocação de militantes para que "o povo seja a classe soberana do país".

O grupo armado de extrema-direita que apoia Bolsonaro

Sara tornou-se na principal porta-voz dos "300 do Brasil", um grupo armado de extrema-direita constituído por apoiantes do presidente Jair Bolsonaro. A organização, que se considera "a primeira militância organizada de direita no Brasil", ganhou projeção nacional em maio ao acampar na Esplanada dos Ministérios em Brasília e pedir o encerramento do Congresso Nacional e a saída dos juízes do Supremo Tribunal Federal.

Além da participação em manifestações antidemocráticas que têm acontecido aos domingos no Brasil, o grupo divulga protestos filmados para as redes sociais e caminhadas de apoio ao presidente Bolsonaro.

Durante quase um mês, o grupo foi financiado através de uma campanha de angariação de fundos na Internet, criada por um apoiante que pedia ajuda "aos patriotas do acampamento dos 300 em Brasília em apoio ao presidente". A angariação de dinheiro durou até ao fim de maio, quando, sob aviso legal, o site decidiu terminar a campanha.

Sara admitiu que parte do grupo estava armado no acampamento em Brasília. "Existem membros que são CACs [sigla para Colecionador, Atirador e Caçador], outros que possuem armas devidamente registadas nos órgãos competentes. Essas armas servem para a proteção dos próprios membros do acampamento e nada têm a ver com nossa militância", declarou a porta-voz em entrevista à BBC Brasil.

Em junho, Sara Winter e mais cinco pessoas foram detidas pela Polícia Federal, no âmbito de uma investigação sobre o financiamento de manifestações antidemocráticas. A líder dos "300 do Brasil", que foi libertada uma semana depois, é também uma das investigadas no inquérito das "fake news", que apura a disseminação de conteúdo falso na Internet.

A luta contra o aborto de uma criança

No último fim de semana, a militante voltou a estar envolvida em polémica depois de ter divulgado, nas redes sociais, dados pessoais e a localização de uma menina de dez anos que se preparava para abortar depois de ter sido violada ao longo de vários anos por um tio, que acabou detido, após andar foragido.

A Justiça brasileira autorizou no domingo que a interrupção da gravidez fosse consumada, o que gerou várias manifestações de grupos antiaborto. Após Sara Winter ter divulgado em que hospital a menor se encontrava, vários manifestantes reuniram-se em frente à unidade hospitalar e chamaram "assassina" à equipa médica responsável pelo caso.

Na quarta-feira, o Ministério Público brasileiro pediu uma indemnização de 1,32 milhões de reais (200 mil euros) a Sara, por ter divulgado os dados da menina. As páginas do Instagram e Twitter da brasileira também foram desativadas, poucas horas depois do grupo de hackers "Anonymous Brasil" ter publicado uma série de dados pessoais dela no Twitter, incluindo o número de cartão de crédito.

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