O Jogo ao Vivo

Política

Se for à Bielorrússia, não use meias brancas e vermelhas porque pode ir para a prisão

Se for à Bielorrússia, não use meias brancas e vermelhas porque pode ir para a prisão

País da ex-União Soviética é governado há 26 anos por Alexandre Lukashenko, um ditador aos olhos do mundo democrático. Os seus cidadãos vivem permanentemente um surrealismo político-social.

Uma mulher circula numa rua movimentada da capital bielorrussa Minsk e é subitamente rodeada e agarrada por quatro homens com balaclavas pretas (máscaras de esqui). Identificam-se, são das forças de segurança e, com maus modos, dizem-lhe imediatamente que ela está vestida de maneira inapropriada.

Porquê?, perguntou a mulher bielorrussa. Porque está a usar meias com as cores da bandeira proibida, responderam-lhe. E depois aplicaram-lhe uma multa no valor de 2320 rublos bielorrussos. É um valor muito pesado: são cerca de 745 euros, o que, basicamente, equivale a um salário mínimo no país.

O "crime" da mulher, explica a BBC, foi usar meias brancas com riscas vermelhas, como a bandeira banida que os nacionalistas bielorrussos adotaram por breves períodos do século XX.

Os comunistas soviéticos substituíram essa bandeira por outra verde e vermelha (2/3 de vermelho) e que incluía o célebre símbolo da foice do martelo, além de um motivo folclórico tradicional. A bandeira verde e vermelha, mas sem a foice e o martelo, foi reintroduzida pelo presidente Alexander Lukashenko em 1995, após a queda do comunismo, no ano em que foi eleito.

Independente da URSS desde 1991

PUB

Lukashenko, considerado um ditador pelo Ocidente, continua no poder há 26 anos e "venceu" as eleições do ano passado com mais de 80% dos votos - mas a eleição foi vista com ceticismo por observadores europeus, que não as consideraram livres nem independentes.

A Bielorrússia, situada na Europa oriental, faz fronteira com a Rússia (leste e nordeste), Ucrânia (sul), Polónia (oeste) e Lituânia e Letónia (noroeste) e não tem saída para o mar. O país de 9,4 milhões de pessoas, maioria de cristãos, é uma república presidencialista que declarou a sua independência da antiga União Soviética em 1991.

Surrealismo político-social

Mais exemplos desse surrealismo que é a vida político e social na Bielorrússia: o cidadão Andrei Parkhomenko foi preso em Minsk por supostamente apoiar manifestantes quando pendurou na varanda da sua casa uma "grande faixa de papel" vermelha e branca.

Andrei ficou perplexo: tratava-se, tão-somente, da caixa do seu novo televisor LG, marca que usa, justamente, as cores vermelha e branca no seu logótipo. A caixa estava na varanda porque o cidadão acabara de mudar de casa e ainda não a tinha deitado ao lixo.

Yulia Yakubovich sofreu um mal-entendido semelhante: no ano passado, foi condenada a dois anos de prisão, pena suspensa, por alegadamente ter bloqueado o trânsito num cruzamento de Minsk. Era um protesto ilegal e a mulher queria fazer valer uma posição política, disse a polícia. Yulia negou o protesto: disse que o trânsito estava parado devido a um semáforo vermelho avariado. Só isso. Mas a pena foi mantida.

"Extremistas" e "vândalos"

Em Mogilev, Maria Voynova foi multada em 94 euros porque a sua assinatura parecia um "slogan extremista". O que era, afinal? Era mesmo a sua assinatura, mas parecia, com algum esforço ótico, o slogan da ACAB, um acrónimo internacional anti-polícia que quer dizer "All Cops Are Bastards" (todos os polícias são bastardos).

Também em Mogilev, relata a BBC, Sergei Skok e Olga Klimkova apanharam três anos de prisão por pendurarem efígies de palha ao longo de uma estrada rural. O homem e a mulher foram considerados culpados de "vandalismo" e de insultos ao presidente Alexander Lukashenko. As autoridades terão considerado que os bonecos de palha, que se destinavam a promover festividades culturais locais, eram "parecidos" com Lukashenko. Sergei e Olga protestaram, evidentemente, mas acabaram na mesma na prisão.

Protestos diminuíram muito

Dezenas de milhares de manifestantes encheram as ruas de Minsk durante vários meses no ano passado, furiosos com o presidente Lukashenko por reivindicar a presidência nas eleições de agosto. A comunidade internacional condenou amplamente o ato eleitoral e considerou o resultado fraudulento.

Nas manifestações, onde havia maioritariamente mulheres, mas também crianças e muitos jovens, a polícia usou gás lacrimogéneo, balas de borracha e efetuou cargas de cassetetes, prendendo milhares de bielorrussos.

Muitos casos de brutalidade policial foram documentados em 2020, diversos jornalistas foram ameaçados e presos e mais de duas dezenas continuam detidos sem acusação formal, como é o caso de Roman Protasevich, o agora célebre jornalista do canal Belamova, que no domingo foi preso em Minsk depois do avião em que seguia, um avião comercial da Ryanair, ter sido desviado por ordens do KGB do presidente.

Lukashenko continua isolado internacionalmente, exceto pelo apoio russo - Vladimir Putin é o único líder mundial que aceita o desvio do avião, considerado por todos um caso de "terrorismo de Estado".

A repressão social continua, mas os protestos antigovernamentais diminuíram muito, com os principais líderes da oposição no exílio, como é o caso da popular Svetlana Tikhanovskaya, ou mesmo na prisão. Mais de 2700 pessoas foram já processadas este ano por atividades anti-estatais e traição à pátria.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG