Itália

Segunda maior cheia em 50 anos atinge o coração de Veneza

Segunda maior cheia em 50 anos atinge o coração de Veneza

Dois mortos, 85% do centro de Veneza alagados, centenas de milhares de euros de prejuízo, calculam as autoridades, a braços com a segunda maior cheia desde que há registos das "acua alta" (1923), que relançou a discussão sobre um sistema gigante de diques automáticos para proteger a histórica cidade e as ilhas na laguna.

O governador de Véneto, Luca Zaia, chamou-lhe "devastação apocalíptica", o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, falou de uma "situação dramática" e o presidente da Câmara, Luigi Brugnaro, exigiu fundos urgentes.

Eram 22.50 horas, menos uma em Portugal, de anteontem, quando o marégrafo de Punta della Salute atingiu mais 187 centímetros, o segundo nível mais alto desde 1966, quando registou 194 e causou elevados prejuízos, especialmente na Basílica de S. Marcos, de origem bizantina (construída em 828) e muito conhecida pelos seus preciosos mosaicos.

"Acqua alta"

Foi a sexta vez que o monumento foi inundado em 1200 anos e a quarta nos últimos 20. Poderá acontecer mais vezes, com a subida do nível do mar e maior frequência dos fenómenos extremos, como as "acqua alta" - devidas à conjugação de baixas pressões atmosféricas com os ventos siroco (vento quente do Saara) e boreal (do nordeste), que se expandem no mar Adriático em choque com as correntes marinhas.

O fenómeno é corrente, resolvido com um par de galochas, quando o marégrafo marca mais uns 80 centímetros, uma meia dúzia de vezes na época outono-inverno. Já as marés excecionais - acima dos 140 centímetros - ocorrem de cinco em cinco anos. A última foi em 2018, a 30 de outubro: galgou aos 156 centímetros.

A exceção voltou anteontem. Impulsionadas por ventos fortes, as águas que atingiram a cidade e as ilhas da laguna veneziana irromperam por palácios e monumentos, hotéis, lojas e casas. Inúmeros curto-circuitos geraram incêndios, até em instituições como o Museu de Arte Moderna e Oriental de Ca" Pesaro. Na ilha de Palestrina, um homem de 70 anos morreu eletrocutado. Outro foi encontrado sem vida, talvez pela mesma causa.

"É a altura de o MOSE ser concluído!", exigiu o autarca veneziano. Brugnaro fala do Módulo Experimental Eletromecânico, um sistema de 78 comportas submersas que formam diques na embocadura dos portos de Lido, Malamocco e Chioggia, para serem acionadas automaticamente.

Contestado devido aos custos elevados (seis mil milhões de euros), aos danos no ecossistema e à ineficácia face à subida do nível do mar, o MOSE foi iniciado em 2003, mas está atrasado com escândalos de corrupção e rombos nas finanças públicas.